Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Mat 26
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1 E aconteceu que, quando Jesus concluiu todos estes provérbios, ele disse aos seus discípulos:
2 Sabeis que daqui a dois dias é a festa da Páscoa, e o Filho do homem será traído para ser crucificado. Mt 26:2
Jesus deixou o templo para nunca mais voltar a ele (Mt 24.1). Com a saída de Jesus o templo perdeu sua característica de habitação de Deus. Em frente ao templo, contemplando Jerusalém, Jesus prediz o futuro e seu glorioso retorno. Depois de um período de grande atividade, chega o momento do silêncio e do sacrifício maior. Os Evangelhos não relatam quase nada sobre a juventude de Jesus. Entretanto, narram a história do martírio e do holocausto do Salvador, praticamente, hora a hora. A Paixão (o sacrifício) e a ressurreição, que inicialmente eram fatos enigmáticos e incompreensíveis para os apóstolos, tornam-se agora o significado absoluto de suas vidas e obras. A Paixão de Cristo corresponde à Páscoa dos judeus (em hebraico Pêssach que significa “passar por cima” ou “passar ao lado”): celebração do livramento do povo hebreu do jugo egípcio ocorrido há mais de 35 séculos (Êx 12.13,23,27). Os cordeiros (simbolização de Jesus Cristo) e os cabritos eram sacrificados, em penitência (arrependimento) pelos pecados cometidos, no dia 14 de Nisã (mês judaico por volta de março e abril). A refeição da Páscoa era comida no fim dessa mesma tarde. Como o dia judaico começava após o pôr-do-sol do dia anterior, a Festa da Páscoa foi celebrada no dia 15 de Nisã, uma quarta-feira. Em seguida ocorria a Festa dos Pães sem Fermento (ou Pães Asmos), durava mais sete dias, e fazia parte das comemorações da Páscoa (Êx 12:15 -20; 23.15; 34.18; Dt 16:1 -8).
3 Então se reuniram os principais sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo, no palácio do sumo sacerdote, o qual se chamava Caifás, Mt 26:3
Os chefes dos sacerdotes, chamados de “principais” e os anciãos (sábios e líderes religiosos do povo), reuniram-se como Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) no palácio de Caifás, saduceu, eleito sumo sacerdote (de 18 a 36 d.C), genro e sucessor de Anás (Jo 18.13), que ocupou o cargo entre os anos de 6 a 15 d.C.
4 e consultaram-se entre eles para que pudessem levar Jesus com astúcia para matá-lo.
5 Mas eles disseram: Não durante o dia, para que não haja alvoroço entre o povo.
6 Ora, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso,
7 aproximou-se dele uma mulher com um vaso de alabastro, com unguento muito precioso, e derramou-o sobre a sua cabeça, estando ele reclinado à mesa.
8 Mas, vendo isto, os seus discípulos indignaram- se, dizendo: Qual o propósito deste desperdício?
9 Pois este unguento podia ter sido vendido por muito, e dado aos pobres.
10 Entendendo isto, Jesus lhes disse: Por que afligis esta mulher? Pois ela fez uma boa obra pra mim.
11 Porquanto tendes os pobres sempre convosco; mas a mim nem sempre tendes.
12 Pois derramando ela este unguento sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento. Mt 26:12
Era costume, no antigo Oriente, ungir a cabeça dos convidados em dias festivos, que praticamente deitavam-se sobre um tipo de almofada ou divã, ao redor de uma mesa bem mais baixa do que as nossas. Com o braço esquerdo se apoiavam sobre as almofadas e com o direito se serviam dos alimentos. Davi escreve um poema em louvor a Yahweh (O nome impronunciável de Deus, em hebraico: ????), no qual descreve a felicidade que há na comunhão com Deus usando a metáfora de uma ceia preparada pelo Senhor (Sl 23.5). Jesus foi visitar alguns amigos em Betânia, uma aldeia que distava cerca de 3 km de Jerusalém. O anfitrião, Simão, fora curado de lepra por Jesus (Mc 14.3). Lázaro estava presente, Marta servia e Maria, irmã de Lázaro e Marta, assume a responsabilidade da hospitalidade amorosa e reverente (Lc 7.46), mas realiza o ato tradicional à sua maneira. Um escravo ungiria a cabeça do hóspede do seu senhor com óleo e lavaria seus pés com água. Maria ofereceu a mais preciosa e cara essência de plantas (nardo, palavra persa nard que em sânscrito nalàdá significa “óleo perfumado”) importada da Índia (em grego Myrón). Marcos (Mc 14.5) informa que o valor daquele alabastro (frasco de mármore lacrado e com gargalo longo, o qual era quebrado no instante do uso, e cujo conteúdo devia ser todo consumido em uma só aplicação para não perder suas propriedades químicas e aromáticas) era de 300 denários, o que correspondia ao salário anual de um trabalhador ou soldado romano (Mt 20.2; Jo 6.7). Maria ungiu a cabeça e os pés de Jesus (Mc 14:3 -9; Jo 12:1 -8) realizando a cerimônia completa de honra e hospitalidade com a qual os judeus deveriam acolher seus irmãos e amigos, numa demonstração de temor a Deus, humildade e amor ao próximo, princípios básicos da Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei de Deus) e dos ensinos de Jesus (Lc 7.44; Jo 13:1 -17). Considerando que Judas traiu Jesus por cerca de 120 denários, é fácil imaginar sua irritação ao ver a atitude de Maria em relação unicamente à pessoa de Cristo (Jo 12:4 -5). Na época da Páscoa era um costume judaico presentear os pobres. Jesus aproveita para esclarecer os discípulos e amigos quanto à proximidade do seu martírio, salientando que Maria havia compreendido verdadeiramente quem é Deus, qual o sentido da adoração (que é consagrar a Deus os nossos mais caros afetos), e que estava cuidando da preparação (somente os nobres tinham seu corpo embalsamado ou mumificado) do seu corpo para o sepultamento. Jesus ainda faz uma alusão à Lei e afirma que a ajuda e o acolhimento aos mais necessitados é tarefa contínua do povo de Deus todos os dias do ano (Dt 15.11). Jesus ergue um memorial a Maria, uma pessoa desconhecida na história, mas cujo ato inspira gerações e gerações em todo o mundo, a ter uma visão correta e prática do que significa amar a Deus.
13 Na verdade eu vos digo que, onde quer que este evangelho for pregado em todo o mundo, também será contado o que esta mulher fez, para memória sua.
14 Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi até os principais sacerdotes,
15 e disse-lhes: O que me dareis, e eu lho entregarei? E eles concordaram em trinta moedas de prata.
16 E desde esse momento, ele buscou oportunidade para traí-lo.
17 E, no primeiro dia da festa dos pães sem fermento, os discípulos vieram até Jesus, dizendo: Onde queres que preparemos para comeres a Páscoa?
18 E ele disse: Ide à cidade, ao tal homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos.
19 E os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a Páscoa. Mt 26:19
Os discípulos prepararam a Ceia conforme a orientação de Jesus e as prescrições da Lei (Êx 12:1 -11) e tiveram de imolar o cordeiro pascal. Jesus celebrou sua última Páscoa judaica com seus discípulos na véspera da data oficial, pois no dia do feriado religioso e nacional que marca a Páscoa, Ele mesmo estaria sendo retirado, morto, da Cruz. O Cordeiro Pascal Imolado para a Salvação de todo aquele que nele crer (Jo 1.12).
20 Ao anoitecer, ele assentou-se com os doze. Mt 26:20
É interessante notar a ordem dos acontecimentos daquela noite: a refeição pascal; o ato de lavar os pés dos discípulos (Jo 13:1 -20); a revelação de Judas como o traidor (Mt 26:21 -25); a deserção de Judas (Jo 13.30); a instituição da Ceia do Senhor (Mt 26:26 -29); os discursos no Cenáculo e a caminho do Getsêmani (Jo 14, 15 e 16); a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17); a angústia de Cristo no Getsêmani (Mt 26:36 -46); o desfecho da traição e a prisão de Jesus (Mt 26:47 -56).
21 E enquanto eles comiam, disse: Na verdade eu vos digo que um de vós me trairá.
22 E eles, demasiadamente tristes, começaram cada um a perguntar-lhe: Senhor, sou eu?
23 E ele, respondendo, disse: O que põe sua mão comigo no prato, esse me trairá.
24 O Filho do homem vai, conforme está escrito a seu respeito; mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não tivesse nascido.
25 Então Judas, que o traía, respondeu e disse: Mestre, sou eu? Ele disse: Tu o disseste.
26 E, enquanto comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.
27 E tomando o cálice, deu graças e deu- lho, dizendo: Bebei todos dele;
28 porque isto é o meu sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.
29 Mas eu vos digo que, daqui em diante não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que eu o beberei novamente convosco no reino de meu Pai.
30 E, tendo cantado um hino, eles saíram para o monte das Oliveiras. Mt 26:30
O NT apresenta quatro relatos sobre a Ceia do Senhor (Mt 26:26 -28; Mc 14:22 -24; Lc 22.19,20 e em 1 Co 11:23 -25). Lucas e Paulo registraram a ordem de Jesus para que a Igreja continuasse a celebrar a Ceia, como um memorial, até a Sua volta iminente. Jesus escolheu o pão sem fermento e o vinho comum para serem apenas símbolos (metáforas físicas) do que Ele é para os crentes (todos os que crêem em Cristo) e do seu ato de sacrifício, para pagar o preço do pecado de todo ser humano. Por isso, todos os seguidores de Jesus (discípulos) são convidados e devem participar da Ceia do Senhor todas as vezes em que for celebrada, comendo do pão e tomando do vinho; com consciência pura diante de Deus (1 Co 11.28), louvor e esperança no coração. A palavra “eucaristia” vem de um termo grego que significa “dar graças”. A primeira “Aliança” foi estabelecida pela aspersão do sangue de animais sacrificados (Êx 24.8; Jr 31.31; Zc 9.11; Hb 9:19 -28). A nova e derradeira “Aliança” foi instaurada pelo próprio sangue do Filho de Deus, vertido sobre a verga e umbral da Cruz (Hb 8:7 -13). Depois de cearem, Jesus e seus discípulos cantaram um hino tradicional de louvor a Deus, baseado nos salmos 115 a 118, chamado em hebraico Hallel (Louvor) da Páscoa. Em seguida partiram para o Getsêmani (nome que significa em hebraico “prensa de azeite”), espécie de grande pomar localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras, também chamado de “Jardim das Oliveiras”, um dos locais preferidos de Jesus para oração e meditação (Lc 22.39; Jo 18.2) e onde se esmagava o fruto das oliveiras para a produção de azeite.
31 Então Jesus lhes disse: Todos vós vos ofendereis por minha causa esta noite; pois está escrito: Eu ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão espalhadas. Mt 26:31
Todos os seguidores de Jesus, inclusive os discípulos mais chegados, abandonariam o Senhor antes do final daquela noite (verso 56) conforme já havia sido profetizado (Zc 13.7).
32 Mas, depois que eu ressuscitar, eu irei adiante de vós para a Galileia.
33 Pedro, respondendo, disse-lhe: Ainda que todos os homens se ofenderem em ti, eu nunca me ofenderei.
34 Disse-lhe Jesus: Na verdade eu te digo que, nesta noite, antes do galo cantar, tu me negarás três vezes.
35 Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, eu não te negarei. E o mesmo disseram todos os discípulos.
36 Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Sentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar.
37 E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se.
38 Então lhes disse: A minha alma está demasiadamente triste, até a morte; ficai aqui e vigiai comigo.
39 E ele indo um pouco mais adiante, prostrou- se sobre a sua face, orando e dizendo: Ó meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.
40 E, ele voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos, e disse a Pedro: O que, não pudeste vigiar comigo nem uma hora?
41 Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está disposto, mas a carne é fraca. Mt 26:41
Este é um dos trechos bíblicos onde a completa humanidade de Jesus é retratada com mais evidência (Hb 5.7). Jesus demonstra que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela nos momentos mais difíceis e dramáticos. Aprendemos também a aceitar que haverá ocasiões em nossa vida em que teremos de enfrentar o sofrimento sem o apoio, conforto ou companhia dos amigos. O Senhor, porém, estará sempre presente. Por isso Jesus pede que os discípulos vigiem com Ele. Não apenas para seu consolo, posto que se afasta dos discípulos à distância de um arremesso de pedra (como se relata nos originais), mas para que eles pudessem se preparar espiritualmente para a grande batalha. Jesus clama por seu Abba (em aramaico “pai querido”). Experimenta a fraqueza humana ao extremo, mas sem pecar. Cita Sl 43.5. Busca a orientação e o consolo do Pai. Sente quão terrível é ficar sem o amparo de Deus, ainda que por instantes, e assume sobre si todo o pecado que a raça humana deveria pagar por sua infidelidade para com Deus, desde os primórdios (Gn 2:15 -17; 3:22 -24; 4:1 -8). O ato de obediência amorosa e aceitação espontânea de Jesus no Getsêmani corresponde à tentação no deserto, quando Jesus rejeitou governar o mundo sem Deus. Agora Ele concorda em morrer por nós com Deus. Por isso, sua morte e ressurreição foram ainda mais relevantes que sua vida de testemunho e milagres, ao contrário de todos os líderes que a terra já conheceu (1Co 2.2). Contudo, o Pai não responde. O Filho, em agonia, insiste por três vezes (Lc 22.44). Deus fica em silêncio na imensidão da noite; os amigos dormem. Jesus compreende que a resposta às suas aflições já havia sido dada (Hb 5.8; 12.2). O Pai tinha de permitir o cumprimento da história. Jesus se levanta da batalha, liberto dos seus temores e aflições; consciente do alto preço a pagar, mas resoluto quanto à sua missão (Lc 22.22; Hb 9.14).
42 Ele se afastou novamente pela segunda vez, orou, dizendo: Ó meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça- se a tua vontade.
43 E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam pesados.
44 E, ele deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
45 Então veio até ele os seus discípulos, e disse- lhes: Dormi agora, e descansai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem está sendo traído pelas mãos dos pecadores.
46 Levantai-vos, vamo-nos; eis que é chegado aquele que me trai. Mt 26:46
A frase de Jesus, nos melhores originais, indica não que ele tenha procurado fugir, mas, sim, que partiu e convocou seus discípulos para se encontrarem com os oficiais que o procuravam.
47 E, enquanto ele ainda falava, eis que veio Judas, um dos doze, e com ele uma grande multidão com espadas e bastões, dos principais sacerdotes e dos anciãos do povo. Mt 26:47
Judas organiza sua emboscada contra Jesus acompanhado dos mais importantes sacerdotes, mestres da Lei e líderes religiosos do povo. E cerca de 500 policiais armados e serventes do Sinédrio (Tribunal), destinados a manter a ordem pública; soldados especiais da corte romana (Jo 18.3), vindos da fortaleza de Antônia, equipados com armas e lanternas (apesar da forte lua cheia da época), pois conheciam e temiam os poderes sobrenaturais de Jesus, embora Ele nunca os tenha usado em benefício próprio.
48 Então, o que o traía lhes deu um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar é esse; segure-o rapidamente.
49 E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Salve, mestre; e o beijou.
50 E Jesus lhe disse: Amigo, porque tu vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o tomaram. Mt 26:50
A palavra grega usada para descrever o beijo de Judas é kataphilein, o mesmo tipo de saudação calorosa com que o pai recebeu o filho pródigo (Lc 15.20). Apesar de Judas estar cometendo uma ofensa terrível, Jesus consegue ver na pessoa de Judas a figura do ser humano distante de Deus: avarento, invejoso, arrogante, iludido, tresloucado e perdido; mas, ainda assim, alguém a quem Jesus amava e considerava como membro da sua família de discípulos. Da mesma maneira o Senhor amou os seus próprios algozes (Lc 23.34) e pela salvação de todos nós se entregou (Lc 15:1 -2; Jo 3.16).
51 E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo sua mão, puxou sua espada e, ferindo um servo do sumo sacerdote, cortou-lhe sua orelha.
52 Então Jesus disse-lhe: Põe novamente a tua espada em seu lugar; porque todos os que lançarem mão da espada, hão de perecer com a espada.
53 Tu pensas que eu não posso agora orar a meu Pai, e ele imediatamente me dará mais de doze legiões de anjos?
54 Mas, nesse caso, como poderia se cumprir aquilo que as escrituras dizem que deve suceder?
55 Naquela mesma hora disse Jesus à multidão: Saístes, como a um ladrão, com espadas e bastões para me tomares? Todos os dias eu me assentava junto de vós, ensinando no templo, e não me prendestes.
56 Mas tudo isto foi feito para que pudesse se cumprir as escrituras dos profetas. Então todos os discípulos, deixando-o, fugiram. Mt 26:56
O discípulo amado, João, escrevendo seu Evangelho, após a morte dos protagonistas, esclarece que foi Pedro quem, num golpe de espada, cortou fora a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote (Jo 18.10). Jesus declara que poderia receber de Deus uma ajuda imediata, com mais de 72.000 anjos (considerando que, naquela época, uma legião era formada por até 6.000 soldados). Lembremos que apenas um anjo foi suficiente para ferir todo o Egito (Êx 12:23 -27) e libertar o povo de Israel do cativeiro. Jesus estava consciente de que a vontade do Pai deveria ser cumprida em todos os detalhes (Zc 13.7). Aceitou tomar o cálice do sacrifício histórico e servir de holocausto para a libertação do crente (toda pessoa que crê em Sua obra vicária e Palavra).
57 E os que seguraram a Jesus o conduziram à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos estavam reunidos.
58 Mas Pedro o seguiu de longe, até o palácio do sumo sacerdote, e, entrando, sentou-se com os servos, para ver o fim.
59 Ora, os principais sacerdotes, e os anciãos, e todo o concílio, buscavam falsas testemunhas contra Jesus, para poderem matá- lo, Mt 26:59
O julgamento de Jesus foi injusto e ilícito por vários motivos, especialmente por ter ocorrido durante a noite e com testemunhas e acusações forjadas, contrariando as leis judaicas (Dt 19.15) e romanas da época. Jesus foi levado primeiro para uma audiência perante Anás, ex-sumo sacerdote (Jo 18:12 -14, 19.23); depois para julgamento diante de Caifás, sumo sacerdote em exercício e genro de Anás, e do Supremo Concílio Judaico, chamado de Sinédrio (Mt 26:57 -68; 27.1). Em seguida, levado ao julgamento romano, diante de Pilatos (Mc 15:2 -5), depois levado à presença de Herodes Antipas (Lc 23:6 -12), retornando à presença de Pilatos (Mc 15:6 -15) para conclusão e condenação final.
60 mas não achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não achavam. Por último, chegaram duas testemunhas falsas,
61 e disseram: Este homem disse: Eu posso destruir o templo de Deus, e reedificá-lo em três dias. Mt 26:61
Obrigar um réu a declarar algo sob juramento diante de Deus era uma atitude ilícita, claramente expressa na jurisprudência israelita, que não tolerava qualquer tipo de tortura ou coação moral e religiosa.
62 E o sumo sacerdote levantou e lhe disse: Nada respondes? O que estes testemunham contra ti?
63 Mas Jesus permanecia em silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Mt 26:63
Jesus jamais fez tal afirmação. As falsas testemunhas distorceram as palavras de Jesus (Jo 2.19), para forjar uma acusação de blasfêmia, cuja pena era a morte.
64 Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; contudo, eu vos digo que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do poder, e vindo sobre as nuvens do céu.
65 Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Ele blasfema falando; para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que agora acabais de ouvir a sua blasfêmia. Mt 26:65
O sumo sacerdote era proibido pela lei de agir dessa maneira e com tamanha força emocional (Lv 10.6); mas, para caracterizar seu horror diante do suposto pecado de infâmia e jogar o público presente contra Jesus, ele se permitiu o chamado “ato extremo”.
66 O que pensas? E eles, respondendo, disseram: Ele é culpado de morte.
67 Então eles cuspiram na sua face, e lhe davam socos, e outros o esbofeteavam,
68 dizendo: Profetiza-nos, Cristo, quem é o que te bateu? Mt 26:68
Marcos informa que vendaram os olhos de Jesus (Mc 14.65), o que explica a provocação em tom de zombaria.
69 Ora, Pedro estava sentado do lado de fora do palácio; e, aproximando-se dele uma criada, disse: Tu também estavas com Jesus da Galileia.
70 Mas ele negou diante de todos, dizendo: Eu não sei o que dizes.
71 E ele saindo para o pórtico, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: Este indivíduo também estava com Jesus de Nazaré.
72 E ele negou outra vez com juramento: Eu não conheço o homem.
73 Pouco depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Certamente tu também és um deles, pois a tua fala te denuncia. Mt 26:73
Pedro, como Jesus, tinha um sotaque indiscutivelmente galileu, facilmente identificado pelos naturais de Jerusalém.
74 Então ele começou a praguejar e a jurar, dizendo: Eu não conheço o homem. E imediatamente o galo cantou.
75 E Pedro lembrou-se das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes do galo cantar, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente. Mt 26:75
A seqüência de erros cometidos por Pedro tem muito a nos ensinar: 1) Demasiada autoconfiança e falta de humildade (Mt 26.33). 2) Desobediência ao pedido de Jesus para dedicar-se à vigilância e oração (Mt 26:40 -44). Esquecimento quanto às advertências e conselhos de Jesus (Mt 26.75; conforme Mt 26.34). Conclusão: grandes quedas na vida cristã são conseqüência da prática de pequenos erros despercebidos ou tratados com displicência.