Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 1
Config
1 Porquanto muitos já tentaram compilar um relato e pôr em ordem uma declaração daquelas coisas que certamente são cridas entre nós,
2 quando eles nos entregaram, os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra,
3 pareceu-me bem a mim também, tendo tido perfeitamente compreendido primeiro todas as coisas, escrevê-las em ordem a ti, ó excelentíssimo Teófilo, Lc 1:3
A palavra grega anothen, traduzida por “origem”, quer dizer: “de cima”, “dos altos céus” (Jo 3.31; Tg 1.17), e se refere também a uma análise criteriosa de “alto a baixo”, “do começo ao fim”. Teófilo, que em latim e grego significa “querido por Deus” ou “aquele que ama a Deus”, foi um militar de alta patente do exército romano que, convertido ao Senhor, patrocinou a pesquisa e a publicação deste relatório fiel sobre a vida e a obra de Jesus, livro que veio a tornar-se parte do cânon bíblico (livros inspirados por Deus) do NT e cujo propósito, assim como João (Jo 20.31), é proporcionar a seus leitores plena certeza quanto aos tremendos fatos relacionados à história de Cristo e à nossa salvação eterna.
4 para que possas conhecer a certeza destas coisas, que tu tens sido instruído.
5 Nos dias de Herodes, rei da Judeia, havia um certo sacerdote de nome Zacarias, da turma de Abias; e sua esposa era das filhas de Arão, e o seu nome era Elisabete. Lc 1:5
Herodes, o Grande, reinou de 37 a 4 a.C. por toda a Samaria, Galiléia e grande parte da Peréia e da Celo-Síria (Mt 2.1). O tempo referido pelo texto situa-se entre os anos 7 e 6 a.C. Zacarias e Isabel eram ambos de ascendência sacerdotal, da linhagem de Arão, grupo sacerdotal de Abias. Tradicionalmente, desde os tempos de Davi, os sacerdotes foram organizados em 24 grandes divisões, sendo Abias um dos líderes das famílias dos sacerdotes (Ne 12.12; 1Cr 24.10).
6 E ambos eram justos diante de Deus, andando sem culpa em todos os mandamentos e ordenanças do Senhor. Lc 1:6
Zacarias e Isabel não eram impecáveis, mas amavam ao Senhor de coração, e Deus observava essa “adoração interior” em seus servos, a qual se refletia “exteriormente” no cumprimento irrepreensível dos preceitos religiosos (Fp 3.6) e, especialmente, no relacionamento com as pessoas. Um grande contraste em relação às atitudes apenas “cosméticas” dos fariseus (Mt 5.20; 23:2 -5).
7 E eles não tinham filho, porque Elisabete era estéril, e ambos eram avançados em idade.
8 E aconteceu que, enquanto ele exercia o sacerdócio perante Deus, na ordem da sua turma,
9 segundo o costume do sacerdócio, coube- lhe por sorte queimar incenso ao entrar no templo do Senhor. Lc 1:9
Uma das grandes responsabilidades do sacerdote era manter o incenso queimando em louvor a Deus, no altar diante do Santo dos Santos. Ele colocava ali incenso novo todas as manhãs, antes do sacrifício matinal, e, outra vez, logo após o sacrifício vespertino (Êx 30:6 -8). Era raro que um sacerdote tivesse o privilégio de ministrar ao Senhor no Santo dos Santos, pois eles eram muitos e a determinação dessa tarefa se fazia por lançamento de sortes. Além disso, essa era uma experiência única na vida de muitos sacerdotes (2Sm 6.7) que, por não estarem vivendo de acordo com a vontade de Deus, eram fulminados pela ira do Senhor em pleno ato de ministração (Ne 11.1; Pv 16.33; Jo 1.7; Atos 1.26).
10 E toda a multidão do povo estava orando do lado de fora, à hora do incenso.
11 E ali lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé à direita do altar do incenso.
12 E quando Zacarias o viu, ficou perturbado, e o medo caiu sobre ele.
13 Mas o anjo lhe disse: Não temas, Zacarias; porque a tua oração foi ouvida, e tua esposa Elisabete te dará um filho, e tu chamarás o seu nome de João. Lc 1:13
A expressão usada pelo anjo, traduzida por “não tenhas medo”, no hebraico tem o sentido de “não perder a confiança em Deus”, sendo uma palavra de encorajamento muito usada em toda a Bíblia (no verso 30 e em 2.10; 5.10; 8.50; 12.7,32; Gn 15.1; 21.17; 26.24; Dt 1.21; Js 8.1). O nome João deriva do hebraico antigo e significa: “O Senhor é bom e misericordioso”.
14 E tu terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento.
15 Porque ele será grande à vista do Senhor, e ele não beberá vinho, nem bebida forte, e ele será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.
16 E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. Lc 1:16
A grandeza de João seria reconhecida pelas qualidades de profeta precursor do Senhor, nazireu (Nm 6.3) e sacerdote. O permanente estado de plenitude e dependência do Espírito Santo capacitaria João a proclamar a Palavra de tal maneira que muitos seriam convertidos de seus caminhos mundanos e formariam um povo de coração preparado para a vinda de Jesus Cristo e do Reino de Deus (Atos 19.4). João cumpriu as profecias de Ml 3.1; 4.5,6 e as registradas em Is 40.3,4 (veja Lc 7:24 -35). João também se submeteu ao voto nazireu de abstinência de bebidas alcoólicas (Nm 6:1 -4). Em seu caso, desde o ventre de sua mãe, como Sansão (Jz 13:4 -7) e Samuel (1Sm 1.11).
17 E irá adiante dele no espírito e no poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os desobedientes à prudência dos justos, a fim de tornar pronto um povo preparado para o Senhor. Lc 1:17
Não há qualquer possibilidade de Elias ter voltado na pessoa de João (Jo 1.21). A Bíblia não oferece nenhuma base textual para as teorias da reencarnação ou mediunidade. Entretanto, João foi Elias na semelhança do seu amor e fidelidade ao Senhor (Mt 11.14). Na sua mensagem poderosa e destemida, convocando os seres humanos ao mais sincero e absoluto arrependimento de seu deliberado e contínuo afastamento de Deus.
18 E Zacarias disse ao anjo: Como eu saberei isto? Porque eu sou um homem velho, e minha esposa avançada em idade. Lc 1:18
À semelhança de Abraão (Gn 15.8), de Gideão (Jz 6.17) e de Ezequias (2Rs 20.8), Zacarias pediu um sinal (1Co 1.22), talvez não da melhor maneira, mas o anjo o atendeu e nos deixou uma lição sobre jamais duvidar da Palavra do Senhor. Um estudo comparativo de Abraão e Sara em relação a Zacarias e Isabel, focalizando especialmente Isaque e João, será de grande valor (Gn 15 a 18).
19 E, respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que permaneço na presença de Deus, e sou enviado para falar-te, e para mostrar-te estas alegres notícias. Lc 1:19
O nome Gabriel em hebraico antigo significa: “o poderoso homem de Deus”. Apenas dois anjos têm seus nomes identificados nas Sagradas Escrituras: Gabriel (Dn 8.16; 9.21) e Miguel (Dn 10.13,21; Jd 9; Ap 12.7).
20 E eis que tu ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que estas coisas se cumprirem, porque tu não creste nas minhas palavras, que se cumprirão ao seu tempo.
21 E o povo esperava por Zacarias, e admiravam- se que ele demorasse tanto tempo no templo. Lc 1:21
A multidão estava aguardando com apreensão e ansiedade que o sacerdote (Zacarias) saísse do Santo dos Santos para proferir a tradicional bênção arônica (Nm 6:24 -26). Entretanto, ele saiu mudo. Todo sacerdote tinha a obrigação de trabalhar durante uma semana nas dependências do templo, uma vez a cada seis meses (Lc 1.23,39).
22 E quando ele saiu, não podia falar com eles, e perceberam que ele havia tido uma visão no templo; porque gesticulava para eles, e permanecia mudo.
23 E aconteceu que, tendo-se completado os dias do seu ministério, ele partiu para a sua própria casa.
24 E, depois daqueles dias, sua esposa Elisabete engravidou, e escondeu-se por cinco meses, dizendo:
25 Assim o Senhor fez comigo nos dias em que ele olhou para mim, para tirar a minha vergonha entre os homens. Lc 1:25
Especialmente no AT, a ausência de filhos ou o empobrecimento eram considerados sinais do desfavor divino, ou de sérios pecados ocultos, o que sujeitaria as pessoas ao castigo de Deus. No caso da infertilidade, toda a responsabilidade pela falta de filhos e, portanto, pelo descontentamento divino, recaía sobre a mulher, a qual era vítima das mais variadas e deprimentes formas de julgamento e rejeição por parte da comunidade e, muitas vezes, do próprio marido. Jesus e seus discípulos jamais aprovaram esse tipo de teologia simplista e distante dos propósitos gerais de Deus para a humanidade (Gn 16.2; 25.21; 30.23; 1Sm 1:1 -18; Lv 20.20,21; Sl 128.3; Jr 22.30).
26 E, no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,
27 para uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Lc 1:27
Lucas trata o assunto da concepção virginal de Jesus de forma clara e objetiva (observe os versos 27, 34 e 35 e Mt 1:18 -25). A fecundação foi obra do Espírito Santo que, ao cobrir Maria, na forma de uma sombra, gerou em seu ventre o embrião que seria Jesus, a eterna segunda pessoa da Trindade. Jesus jamais deixou de ser Deus, mas Deus assumiu completamente corpo e alma humanas, possibilitando que Jesus fosse plenamente homem e plenamente Deus a um só tempo (Jo 1.14). Maria havia sido desposada, o que significa no judaísmo da época, uma espécie de noivado definitivo. Um compromisso de casamento sem possibilidade de arrependimento. Qualquer infidelidade por parte da mulher a partir desse pacto matrimonial, era punida com a pena de morte por apedrejamento para a virgem que cometera adultério e para o homem que a tivesse seduzido (Dt 22.23,24). Maria e José eram descendentes diretos de Davi (Lc 1.32,69 e Lc 2.4).
28 E o anjo se aproximou dela, e disse: Salve, tu que és muito favorecida; o Senhor está contigo; bendita és tu entre as mulheres. Lc 1:28
Em algumas versões traduzidas a partir da Vulgata latina, conservou-se a palavra “Ave” (de onde teve origem a frase: “Ave Maria”) uma expressão comum de saudação em latim, e que significa: “Salve!” ou “Seja Feliz!”, mais propriamente traduzida aqui por “Alegra-te!”. Outra expressão que aparece em algumas versões da Bíblia é: “cheia de graça”, numa referência ao favor de Deus para com sua serva. A tradução e o sentido mais literal dessa frase nos originais gregos são: “tu que foste e permaneces repleta do favor divino”.
29 E, vendo-o, ela ficou perturbada com o que ele disse, e pôs-se a pensar que tipo de saudação seria essa.
30 E o anjo lhe disse: Não temas, Maria; porque tu achaste graça diante de Deus.
31 E, eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Lc 1:31
O nome próprio “Jesus” deriva do hebraico antigo (cwSy - Yeshua) e significa: “Josué”, que quer dizer: “Yahweh Salva” ou “Jeová é o Salvador” (Mt 1.21).
32 Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; Lc 1:32
“Grande” era um título de destaque dado a personalidades notáveis, especialmente aos imperadores da época. O anjo comunica que o Reino de Cristo é imenso e jamais terá fim. A expressão hebraica traduzida por “Altíssimo” é igualmente um título honroso, muitas vezes usado no AT e no NT em referência à pessoa de Deus (nos versos 35,76; 6.35; 8.28; Gn 14.19; 2Sm 22.14; Sl 7.10), e tem dois sentidos. Refere-se ao divino Filho de Deus e ao Messias (o Cristo, em grego). O messianato de Jesus é claramente abordado nos versos 32b e 33. Quanto ao trono de Davi, que significa o comando do mundo, foi profetizado no AT que seria entregue por Deus ao Messias, da descendência de Davi (2Sm 7.13,16; Sl 2.6,7; 89.26,27; Is 9.6,7).
33 e ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e o seu reino não terá fim. Lc 1:33
A missão de Cristo como mediador um dia se encerrará (1Co 14:24 -28) e dará lugar ao Reino unificado do Pai e do Filho que durará eternamente (Sl 45.6; Rm 1.3,4; Fp 2:9 -11; Hb 1.8; Ap 11.15).
34 Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, visto que eu não conheço homem algum? Lc 1:34
Maria não se assusta tanto com o anjo quanto com as palavras dele. Entretanto, mesmo sendo uma jovem simples de pequena aldeia do interior da Galiléia, não duvida da revelação divina que recebe, como ocorreu com o experiente teólogo e dedicado sacerdote Zacarias. Maria apenas – compreensivelmente – desejava saber “como” tal evento se daria. Muito embora as revelações comunicadas a Maria tenham sido ainda mais extraordinárias do que as anunciadas a Zacarias, a serva do Senhor não precisou de provas ou sinais para aceitar, com alegria submissa, a missão que o Senhor lhe confiara.
35 E, respondendo o anjo, disse-lhe: O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te sombreará; por isso também o santo nascido de ti, será chamado Filho de Deus. Lc 1:35
Alguns séculos depois da ressurreição do Senhor, surgiram certos escritos seculares questionando o período da primeira de Jesus, sobre o qual a Bíblia nada fala. Foram sugeridas várias hipóteses e uma delas levanta a possibilidade de Jesus ter passado por uma fase em que teria cometido alguns pecados para se assemelhar ainda mais aos seres humanos. As Sagradas Escrituras, entretanto, são claras em afirmar que Jesus nasceu Santo (a expressão hebraica original significa: separado para habitação de Deus) e jamais cometeu um só pecado (2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 2.22; 1Jo 3.5). Não foi o nascimento virginal de Jesus que o fez “Santo”, e muito menos, “Filho de Deus”. Esse foi o meio pelo qual o Filho, preexistente (que sempre existiu), revelou Sua Deidade (Jo 1.1,14; Fp 2.6).
36 E, eis que tua prima Elisabete, também concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para ela, que era chamada estéril.
37 Porque com Deus nada será impossível.
38 E disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor; seja comigo segundo a tua palavra. E o anjo se ausentou.
39 E Maria se levantou naqueles dias, e foi apressadamente à região montanhosa, para uma cidade de Judá,
40 e entrou na casa de Zacarias, e saudou a Elizabete.
41 E aconteceu que, quando Elizabete ouviu a saudação de Maria, o bebê saltou no seu ventre, e Elizabete ficou cheia do Espírito Santo; Lc 1:41
Lucas dá grande ênfase à ação do Espírito Santo, não apenas no evangelho, mas, especialmente no livro de Atos. Algumas versões trazem a expressão “possuída” para descrever o quanto Isabel ficou cheia (em plenitude) do Espírito. Foi pelo Espírito que Isabel reconheceu Maria como mãe do Redentor (Lc 1.43) e é só pelo Espírito Santo que o pecador pode conhecer a Cristo como seu único, suficiente e eterno Salvador e Senhor (Jo 16.8,9).
42 e ela falou em alta voz, dizendo: Abençoada és tu entre as mulheres, e abençoado é o fruto do teu ventre.
43 E por que motivo isso é para mim, que a mãe do meu Senhor venha a mim?
44 Pois, eis que assim que a voz da tua saudação soou aos meus ouvidos, o bebê saltou de alegria no meu ventre.
45 E abençoada a que creu; porque haverá cumprimento das coisas que foram ditas pelo Senhor.
46 E Maria disse: A minha alma engrandece ao Senhor. Lc 1:46
Maria (e não Isabel como sugerem algumas versões), na plenitude do Espírito Santo, a exemplo de Ana (1Sm 2:1 -10), louva ao Senhor por sua graça e misericórdia para com todos, especialmente para com os humildes e desprotegidos. A tradição da Igreja transformou esse cântico (salmo) num hino conhecido como Magnificat, pois na tradução desse texto em latim, na Vulgata, a primeira palavra é “Magnificat”, que significa: “Engrandece”.
47 E o meu espírito regozijou-se em Deus meu Salvador.
48 Pois ele tem considerado a humildade de sua serva; porquanto, eis que daqui em diante todas as gerações me chamarão de abençoada.
49 Porque aquele que é poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome.
50 E a sua misericórdia está sobre os que o temem de geração em geração.
51 Ele mostrou força com o seu braço; ele espalhou os orgulhosos na imaginação de seus corações.
52 Ele derrubou os poderosos de seus assentos, e exaltou os humildes.
53 Ele encheu de coisas boas os famintos, e ao rico ele enviou vazio. Lc 1:53
Maria, usando uma forma de expressão profética, refere-se às maravilhas que a vinda do Cristo (o Messias) produziria (Tg 5:1 -6). Deus supre os “famintos” de bênçãos espirituais e bens materiais (de pão e justiça – Ef 1.3 com 1Sm 2.5), especialmente quando eles aprendem o que é “temer ao Senhor” (viver em harmonia e respeito à vontade revelada de Deus na sua Palavra).
54 Ele ajudou a seu servo Israel, em lembrança de sua misericórdia.
55 Como ele falou a nossos pais, a Abraão e a sua semente para sempre. Lc 1:55
A expressão “seu servo”, em grego transliterado é paidos, e significa: “servo filho”. “Filhos de Deus” é uma expressão que, em grego, se refere a outras duas palavras: tekna ou huioi. Além do servo Israel, também Davi e Cristo são como “servos” de Deus (Lc 1.69; conforme Atos 3.13,26; 4.25,27,30). Israel, como o Servo de Yahweh (Jeová), tendo cumprido sua missão, cede seu lugar ao Messias (Jesus Cristo) nas maravilhosas profecias sobre o “Meu Servo” (Is 41.8,9; 42.1; 44.1,2,21; 45.4). O cântico termina garantindo que Deus será fiel às promessas que fez a Seu povo (Gn 22:16 -18).
56 E Maria ficou com ela em torno de três meses, e depois voltou para sua própria casa. Lc 1:56
Maria ficou com Isabel, sua parenta e amiga querida, até o nascimento de João Batista, quando retornou para casa, em Nazaré.
57 Ora, completou-se o tempo de Elisabete para o parto; e ela teve um filho.
58 E os seus vizinhos e parentes ouviram que o Senhor tinha mostrado grande misericórdia sobre ela, e regozijaram-se com ela.
59 E aconteceu que, ao oitavo dia, eles vieram circuncidar o menino; e chamaram-no Zacarias, conforme o nome de seu pai.
60 E, respondendo sua mãe, disse: Não! Mas ele será chamado de João.
61 E disseram-lhe: Não há ninguém na tua parentela que se chame por este nome.
62 E eles fizeram sinais ao pai, como ele queria que o chamasse.
63 E, ele pedindo uma tábua de escrever, escreveu, dizendo: O seu nome é João. E todos se maravilharam. Lc 1:63
Na antigüidade judaica era usado um pedacinho de madeira coberto com cera e um buril (um pequeno instrumento de metal usado para gravar textos e imagens em madeira), como uma espécie de livro de anotações. A importância dos nomes atribuídos às pessoas é algo notável em toda a Bíblia. No início da Nova Dispensação, temos Zacarias – “Deus se recorda de Sua aliança” (Lc 1.54); Isabel – “Deus é fiel”; João – “Deus é bom e misericordioso” (Mt 3.1); Maria – “aquela que guarda em seu coração”, e o próprio Jesus – “Deus é o Salvador” (Lc 1.31; Mt 1.21).
64 E sua boca foi aberta imediatamente, e soltou- se sua língua; e ele falava, louvando a Deus.
65 E veio temor sobre todos os que moravam ao seu redor; e todos estes dizeres foram divulgados ao longo de toda região montanhosa da Judeia.
66 E todos os que ouviam os colocavam no seu coração, dizendo: Que tipo de criança será essa? E a mão do Senhor estava com ele.
67 E seu pai Zacarias ficou cheio do Espírito Santo, e profetizou, dizendo: Lc 1:67
A exemplo de Maria, com seu salmo, Zacarias também expressa sua alegria espiritual e louvor (agora com a voz livre do sinal punitivo do anjo, devido ao cumprimento da promessa), por meio de um hino profético. Esse cântico ficou conhecido pela Igreja como Benedictus, que em latim significa “Bendito” ou “Louvado seja”, pois se trata da palavra que inicia este hino na Vulgata latina.
68 Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque tem visitado e redimido o seu povo,
69 e nos levantou uma trombeta de salvação na casa de seu servo Davi, Lc 1:69
A salvação de Deus para Israel não se limitará à redenção nacional (Lc 1.71), mas, principalmente, à salvação espiritual (Lc 1.75,77). A expressão hebraica, aqui interpretada por “poderosa” se traduz literalmente por “chifre de boi”, numa alusão à força e ao poder (conforme Dt 33.17; Sl 18:1 -3; 22.21; 92.10,11; 132.17,18; Mq 4.13). Jesus – o Messias da Casa de Davi – tem poder para salvar e libertar seu povo de todo tipo de opressão e escravidão.
70 como ele falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo;
71 para nos salvar dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam,
72 para realizar a misericórdia prometida a nossos pais, e lembrar-se do seu santo pacto;
73 e do juramento que ele prometeu a nosso pai Abraão,
74 de nos conceder que, libertados da mão dos nossos inimigos, possamos serví-lo sem medo,
75 em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida.
76 E tu, ó menino, serás chamado profeta do Altíssimo; porque tu irás ante a face do Senhor, para preparar os seus caminhos, Lc 1:76
João foi chamado profeta do Altíssimo, enquanto Jesus foi reconhecido como Filho do Altíssimo (Lc 1.32). O principal ministério de João foi testificar de Cristo (Jo 1.7,29,32-36). O maior ministério do cristão é também ser testemunha de Jesus Cristo (Atos 1.8). João recebeu a missão de preparar os caminhos do Senhor para sua primeira vinda, enquanto nós devemos apressar o glorioso retorno de Cristo por meio do nosso testemunho e da evangelização de todos os povos (2Pe 3.11,12).
77 para dar o conhecimento da salvação ao seu povo, pela remissão dos seus pecados,
78 mediante a terna misericórdia do nosso Deus, pela qual na aurora lá do alto nos visitou; Lc 1:78
Assim como o sol nascente desvanece as trevas, Cristo aniquilou o poder e a culpa do pecado. Veja figuras de linguagem semelhantes em: Nm 24.17; Is 9.2; 60.1. Ele conquistou o império que estava nas mãos de Satanás e destruiu o poder da morte (Rm 5:12 -21). O sacerdote Zacarias, não apenas exaltou seu filho, o profeta João, mas louvou o Messias Jesus que chegaria em breve (Lc 1.78,79).
79 para dar luz aos que estão assentados em escuridão e na sombra da morte, para guiar os nossos pés no caminho da paz. Lc 1:79
Os que vivem nas trevas são os que estão perdidos, a caminho da morte (separação de Deus) eterna (Is 9.1,2; Mt 4.16). A humanidade busca desesperadamente por paz, entretanto o que se vê é o aumento constante da violência e da brutalidade entre pessoas e nações. O vocábulo “paz” no original grego (transliterado: irene), significa: “estado de descanso, tranqüilidade e segurança, devido a um harmonioso relacionamento entre Deus e a pessoa humana”. Jesus Cristo é o Príncipe da Paz e todos os seus discípulos já podem desfrutar dessa Paz que será completa e mundial, quando o Senhor estabelecer seu Reino de forma plena e definitiva na terra renovada (Ap 21.1).
80 E o menino crescia, e se fortalecia no espírito, e estava nos desertos até o dia da sua chegada a Israel. Lc 1:80
Zacarias e Isabel, já idosos quando João nasceu; morreram quando ele era ainda muito jovem. Segundo historiadores e arqueólogos, João teria sido levado para o deserto da Judéia, onde viveu cerca de trinta anos e muito aprendeu com os essênios da região de Qunram. A semelhança de terminologia da sua pregação com os chamados Rolos do Mar Morto é notável. João Batista começou seu ministério público com cerca de trinta anos, idade em que os profetas tinham, em geral, sua maioridade e maturidade espiritual reconhecidas pelos conselhos de rabinos.