Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 24
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1 Ora, no primeiro dia da semana, muito cedo de manhã, elas foram ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. Lc 24:1
Conforme o horário judaico, o primeiro dia da semana (domingo) começava logo após o pôr-do-sol do sábado. As mulheres puderam então comprar os perfumes e especiarias e preparar os ungüentos e bálsamos que seriam usados na conclusão dos preparativos do corpo de Jesus e do túmulo para o sepultamento conforme a tradição judaica (Mc 16.1). As mulheres saíram bem cedo na manhã do domingo, quando ainda estava escuro (Jo 20.1), e chegaram ao túmulo sob os primeiros raios da aurora (Mt 28.1; Mc 16.2).
2 Elas acharam a pedra do sepulcro revolvida.
3 E, elas entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Lc 24:3
Normalmente se fechavam os túmulos com uma grande pedra para evitar que vândalos e animais pudessem perturbar os corpos ali sepultados. Entretanto, as autoridades romanas haviam lacrado o túmulo, onde depositaram o corpo de Jesus com o selo de Roma e um grupo de soldados foi destacado para vigiar a área do sepulcro (Mt 27:62 -66).
4 E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens com vestes resplandecentes; Lc 24:4
Os anjos tinham aparência humana, mas suas vestes irradiavam uma luz intensa como a do dia claro. Fenômeno semelhante ocorreu no evento da transfiguração, como um prenúncio da ressurreição (Lc 9.29,32; Atos 1.10; 10.30). Mateus e Marcos descrevem apenas um anjo (Mt 28.2; Mc 16.5), mas era comum aos autores dos evangelhos dar ênfase às pessoas que tomavam a palavra nos eventos narrados. Além disso, em certas ocasiões, cada um dos evangelistas teve sua atenção voltada para um ou outro aspecto específico, o que evidencia a total independência dos relatos.
5 e, estando elas com medo, e abaixando as suas faces para o chão, eles lhe disseram: Por que procurais o vivo dentre os mortos? Lc 24:5
Os anjos procuram encorajar a fé das mulheres. O Senhor havia predito todos esses acontecimentos aos seus discípulos e discípulas muitas vezes e de diversas maneiras (Lc 9.22). Agora, mais do que nunca, era importante crer. Elas estavam vendo as ataduras de linho e o lenço (em grego: soudarion) que envolvera a cabeça do Senhor, tudo arrumado de um jeito que ser humano algum sequer teria forças para romper aquelas amarras fúnebres, mesmo assim não conseguiam, de imediato, acreditar plenamente na ressurreição de Jesus (Jo 20:5 -8).
6 Ele não está aqui, mas está ressuscitado; lembrai- vos como ele vos falou, estando ainda na Galileia,
7 dizendo: O Filho do homem deve ser entregue nas mãos dos homens pecadores, e ser crucificado, e ao terceiro dia ressuscitar.
8 E elas lembraram-se das suas palavras.
9 E, retornando do sepulcro, contaram todas essas coisas aos onze, e a todos os demais. Lc 24:9
Depois do ato de traição de Judas, a expressão “os Onze” passou a ser usada em referência ao grupo dos apóstolos (Atos 1.26; 2.14). Judas já estava morto quando o Cristo ressurreto se encontrou com seus apóstolos pela primeira vez, no entanto, o grupo continuava, em muitas ocasiões, a ser chamado de “os Doze” (Jo 20.24). Os “demais” ou “outros” se refere aos muitos discípulos e discípulas que vinham seguindo o Senhor desde a Galiléia.
10 Estas eram: Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras mulheres que estavam com elas, que contaram estas coisas aos apóstolos. Lc 24:10
Maria Madalena é citada em primeiro lugar na maioria das listas das discípulas do Senhor (Mt 27.56; Mc 15.40 conforme Jo 19.25). Foi também a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado (Jo 20:13 -18). Joana (Lc 8.3) é mencionada apenas por Lucas nesta ocasião, e Marcos é o único que acrescenta Salomé (Mc 16.1). Maria, mãe de Tiago (Lc 16.1), é “a outra Maria” de Mt 28.1. A ausência de Maria, mãe do Senhor, pode ser explicada pelo fato de que ela, mais que todos, confiava nas palavras do seu filho e aguardava com João – o discípulo amado – o cumprimento das profecias e da ressurreição de Jesus (Jo 19.27).
11 E as palavras delas lhes pareciam contos infundados, e não acreditavam nelas. Lc 24:11
Os apóstolos e discípulos estavam longe de acreditar no evento da ressurreição com base no testemunho emocionalmente descontrolado daquelas discípulas (Jo 20.25). A expressão leros nos originais gregos, traduzida aqui por “delírio”, e, em algumas versões por “loucura”, significa literalmente “tolice” ou “esquisitice”.
12 Então, Pedro levantando-se, correu para o sepulcro; e, abaixando-se, viu os panos de linho ali postos; e retirou-se, admirando consigo mesmo o que acontecera. Lc 24:12
João nos informa que ele também estava com Pedro nessa emocionante corrida até o sepulcro (Jo 20:3 -9).
13 E eis que, dois deles foram naquele mesmo dia para uma aldeia chamada Emaús, que distante de Jerusalém sessenta estádios; Lc 24:13
O domingo da ressurreição simboliza a era da nova criação. A época da Graça e o início do final dos tempos com a iminente volta de Cristo em glória. Emaús era uma pequena vila, hoje desconhecida, mas seu nome significa “lugar das águas termais” ou “águas que curam”, e para lá caminhavam desconsolados dois discípulos do Senhor: Cléopas (Lc 24.18) e, segundo vários estudiosos, o próprio Lucas. A medida de distância romana “sessenta estádios”, corresponde a cerca de onze quilômetros.
14 e iam falando um com o outro sobre todas estas coisas que tinham acontecido.
15 E aconteceu que, enquanto eles caminhavam juntos e arrazoavam entre si, o próprio Jesus se aproximou, e ia com eles.
16 Mas os seus olhos foram retidos, para que o não conhecessem.
17 E ele lhes disse: Que tipo de comuni- cações são essas que tendes um com o outro enquanto caminhais, e estais tristes?
18 E um deles, cujo nome era Cleopas, respondendo, disse-lhe: És tu somente um estrangeiro em Jerusalém e não soube das coisas que nela têm acontecido nestes dias?
19 E ele disse-lhes: Quais coisas? E eles lhe disseram: A respeito de Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em feitos e palavras diante de Deus e de todo o povo; Lc 24:19
Tinham certeza de que era um profeta de Deus, por suas palavras poderosas e milagres indiscutíveis (Atos 7.22). Entretanto, eles esperavam que ele também fosse o Messias (Dt 18.15,18) e libertasse o povo de Israel da opressão romana (Lc 1.68; 2.38; 21.28,31 conforme Tt 2.14; 1Pe 1.18). E por isso estavam muito decepcionados.
20 e como os principais sacerdotes e os nossos governantes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram.
21 Mas nós esperávamos que fosse ele quem havia de remir Israel; e, todavia, além do mais, já é hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram.
22 Sim, e também algumas mulheres de nossa companhia, nos surpreenderam, as quais de madrugada foram ao sepulcro;É verdade também que algumas mulheres, seguidoras conosco, nos assustaram. Porquanto foram de madrugada ao sepulcro,
23 e, não achando o seu corpo, elas vieram, dizendo que também haviam tido uma visão de anjos que diziam estar ele vivo.
24 E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro e acharam isto mesmo como as mulheres haviam dito; mas a ele não viram. Lc 24:24
Assim como a maioria das pessoas em nossos dias, os discípulos não conseguiram acreditar nas evidências do túmulo vazio, nem na declaração explícita dos anjos, nem no testemunho respeitável das discípulas que acompanharam Jesus desde a Galiléia; nada convence, a não ser a própria pessoa de Cristo (Lc 24.30). Isso significa que ninguém se convencerá da ressurreição e do senhorio de Cristo, a menos que o Espírito Santo venha e toque a cada pessoa em sua individualidade com o poder da fé (Atos 2.38; Rm 6.23; Ef 2.8).
25 Então, ele lhes disse: Ó tolos, e tardos de coração para crerdes em tudo o que os profetas falaram!
26 Não convinha que o Cristo sofresse essas coisas e entrasse na sua glória? Lc 24:26
O vocábulo grego edei, conforme os originais bíblicos, tem o sentido de “era necessário” ou “imperioso”. O que significa que tudo quanto se passou com Jesus Cristo fora conseqüência do propósito divino e da Palavra de Deus, que estão acima de toda a justiça e compreensão humanas. A esperança messiânica concentra seu amor e atenção sobre as glórias eternas, sem se deixar abater pela dor da Paixão (Lc 9.43; Fp 2:5 -11).
27 E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes em todas as escrituras as coisas a seu respeito.
28 E, aproximando-se à aldeia para onde iam; ele fez como quem ia para mais longe.
29 Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco; porque já é tarde, e já declinou o dia. E ele entrou para permanecer com eles. Lc 24:29
Tudo indica que se Jesus não tivesse sido convidado a entrar, teria continuado seu caminho. O Senhor jamais força sua entrada no coração humano. Ele se apresenta e aguarda ansioso o convite para habitar em nosso espírito e nos abençoar com um novo nascimento e uma nova vida (Ap 3.20; Jo 10.9).
30 E aconteceu que, estando assentado com eles à mesa, ele tomou o pão e o abençoou, e partiu- o e deu-lhes. Lc 24:30
Essa passagem lembra a Ceia, onde o “partir do pão” é termo comum para a Ceia (Atos 2.42) e simboliza o fato de que sem Jesus Cristo à cabeça da mesa não pode haver verdadeira comunhão (1Co 10.16).
31 E os seus olhos foram abertos, e eles o reconheceram; e ele desapareceu de diante deles.
32 E eles disseram um para o outro: Não ardia nosso coração enquanto ele falava conosco no caminho, e quando ele nos abria as escrituras? Lc 24:32
Os “olhos impedidos” de antes (Lc 24.16) recebem o milagre da visão espiritual e são “abertos”. Almas e corações “tolos” e “lentos” (Lc 24.25) passam a “queimar” (Lc 24.32) com amor e disposição urgente para proclamar a Salvação de Cristo ao mundo.
33 E na mesma hora levantaram-se e retornaram para Jerusalém, e encontraram os onze reunidos, e os que estavam com eles,
34 dizendo: Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão. Lc 24:34
E Jesus, apesar de tudo, fez questão de aparecer a Simão (Jo 21:15 -19), o primeiro discípulo da lista de aparecimentos de 1Co 15.5.
35 E eles contaram que coisas tinham acontecido no caminho, e como o reconheceram no partir do pão.
36 E, enquanto eles falavam isto, o próprio Jesus ficou no meio deles, e disse- lhes: Paz seja convosco.
37 Mas eles, espantados e atemorizados, pensavam estar vendo um espírito.
38 E ele lhes disse: Por que estais perturbados? E por que surgem pensamentos em vossos corações?
39 Olhai as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; tocai-me e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Lc 24:39
Temos base bíblica para afirmar que o corpo ressurreto tem a aparência do corpo anterior, todavia sua substância geral é de um estado especial e tênue. Jesus apareceu entre eles, por trás das espessas portas trancadas (Jo 20.9), evidenciando que seu corpo era de uma ordem diferente (Mc 16.12). As marcas dos cravos e da lança podiam ser vistas no corpo de Cristo (Jo 20.27), pois era exatamente o mesmo corpo do Senhor antes da morte, composto de carne e ossos (Lc 24.39). Expressões como: “Tocai-me” ou “Apalpai-me”, colocam por terra os argumentos gnósticos (1Jo 1.1). Essas são indicações que nos fazem crer que sem dúvida reconheceremos perfeitamente nossos amados na ressurreição (1Co 15.44). A tradicional saudação hebraica, com sotaque galileu: Shãlôm, que traz o sentido geral de “paz com saúde e conforto”, foi recebida com surpresa e alegria pelos discípulos e agora adquire o sentido completo e messiânico de: Graça (Rm 1.7), Vida (Rm 8.6) e Justiça (Rm 14.17).
40 E, falando isso, ele mostrou-lhes suas mãos e seus pés.
41 E, eles ainda não crendo, por causa da alegria e admiração, disse-lhes: Tendes aqui algo de comer?
42 Então, eles deram-lhe um pedaço de um peixe assado, e um favo de mel,
43 e ele tomou-o e comeu diante deles.
44 E ele disse-lhes: Estas são as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco, que era necessário que se cumprissem todas as coisas que foram escritas a respeito de mim na lei de Moisés, e nos profetas, e nos salmos. Lc 24:44
O cânon hebraico do AT é formado de três grandes divisões, sendo que o livro dos Salmos era o primeiro livro da terceira sessão, chamada de “Escritos”, o que revela que Jesus Cristo, o Messias, fora predito em todo o AT.
45 Então, ele abriu o seu entendimento, para que eles pudessem compreender as escrituras,
46 e disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo sofresse e ressuscitasse dos mortos no terceiro dia, Lc 24:46
O AT retrata o Messias como um profeta que sofreria (Sl 22; Is 53), mas ressuscitaria no terceiro dia (Sl 16:9 -11; Is 53.10,11 conforme Jo 1.17 e Mt 12.40). A predição da morte e da ressurreição de Jesus Cristo está conectada à essência da resposta do ser humano (o arrependimento – Atos 5.31; 10.43; 13.38; 26.18) e do seu benefício resultante (o perdão – Is 49.6; Atos 13.47; 26.22,23), a começar de Jerusalém (Atos 1.8).
47 e que em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.
48 E vós sois testemunhas destas coisas.
49 E eis que, eu envio sobre vós a promessa de meu Pai; mas ficai na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder. Lc 24:49
O poder para cumprir a missão de pregar a todas as nações (Lc 24.47) é uma referência à promessa do Espírito Santo, que é a própria pessoa do Cristo, habitando e agindo na vida do cristão fiel, e que se cumpriria a partir do relato de Atos 2.4 (Jl 2.28,29 conforme Mt 28:18 -20 e Atos 1.8).
50 E ele levou-os para fora, até Betânia, e ele levantando as suas mãos, os abençoou. Lc 24:50
Jesus acompanhou seus discípulos até uma aldeia próxima a Betânia, no monte das Oliveiras (Lc 19.29; Mt 21.17).
51 E aconteceu que, enquanto os abençoava, apartou-se deles e foi elevado ao céu. Lc 24:51
Bem diferente dos seus desaparecimentos anteriores (Lc 4.30; 24.3; Jo 8.59), esse “até logo” do Senhor se dá à vista de todos, no jardim das Oliveiras, de forma saudosa e tranqüila, subindo ao céu numa nuvem (Atos 1.9). Não é ainda a exaltação do Senhor (Jo 20.17), mas o fim de um tempo histórico. Jesus não mais aparecerá fisicamente ao mundo até seu glorioso retorno (Atos 1.11).
52 E eles o adoraram, e retornaram para Jerusalém com grande júbilo. Lc 24:52
A terrível tristeza com o afastamento de Jesus na cruz e no sepulcro é agora perfeitamente substituída pelo júbilo glorioso da presença do Espírito do Senhor nos corações de todos os discípulos, produzindo alegria e poder (Lc 2.46; 5.41).
53 E estavam continuamente no templo, louvando e bendizendo a Deus. Amém. Lc 24:53
E naqueles dias, imediatamente após a ascensão de Jesus Cristo, os cristãos (expressão com a qual as pessoas se referiam aos seguidores do Senhor e que significa em grego: “pequenos cristos” ou “crentes”), costumavam reunir-se diariamente no templo (Atos 2.46; 3.1; 5.21,42), no qual muitas salas ficavam à disposição para meditação, oração e estudo das Escrituras (Lc 2.37).