Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 10
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1 Depois dessas coisas, o Senhor nomeou também outros setenta, e os enviou de dois em dois adiante de si, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. Lc 10:1
Os melhores e mais antigos manuscritos gregos de Lucas, nos informam que Jesus enviou 72 de seus discípulos (uma alusão a Nm 11:16 -17), em duplas (Lc 9:1 -6; Mc 6.7; Atos 13.2; 15.27,39,40; 17.14; 19.22), com a missão de proclamar o Reino de Deus e fazer novos arautos do Senhor (discípulos). Lucas salienta a universalidade do Evangelho (16 vezes), para os pecadores de todos os povos e raças, tanto samaritanos como gentios e os próprios judeus (Lc 24.47). O número de discípulos demonstra que Jesus tinha um grupo de seguidores fiéis de tempo integral muito maior do que os Doze mais próximos, e uma agenda repleta. Orientações semelhantes foram dadas por Jesus aos Doze (Mt 9.37,38; 10:7 -16; Mc 6:7 -11; conforme Lc 9:3 -5).
2 Portanto, lhes dizia: A colheita verdadeiramente é grande, mas poucos são os trabalhadores; orai, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita. Lc 10:2
O campo (a seara) é enorme e a grande missão é fazer discípulos de Cristo em todas as nações, pois o Dia do Juízo se aproxima (Mt 13.39, Jo 4.35; Ap 14.15). Esse é o desafio missionário: a grandeza da plantação e a urgência da missão. A oração contínua para que Deus mande servos dedicados à obra. O “Ide” de Jesus é um apelo para todos os discípulos, cada qual com seu dom e campo de ação (Rm 10.15; Rm 12).
3 Ide pelo caminho; eis que eu vos envio como cordeiros ao meio de lobos. Lc 10:3
A estratégia de Cristo é completamente diferente de qualquer outro imperador. Seus discípulos devem ser totalmente dependentes do Onipotente Pastor na conquista pacífica do território de posse do inimigo.
4 Não carregueis bolsa, nem alforje, nem calçados; e não saudeis a nenhum homem pelo caminho.
5 E, em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz seja a esta casa. Lc 10:5
Os discípulos não deveriam se preocupar com o sustento, muito menos com o acúmulo de bens. Não levariam sacos de viagem (alforjes), nem um par extra de sandálias. Sua manutenção viria de Deus, através de pessoas generosas, que cuidariam plenamente de suas necessidades. As saudações orientais tradicionais eram (e ainda o são em muitos lugares) prolongadas, consumindo horas de conversa. Jesus adverte a todo cristão sobre o sentido de urgência e otimização do tempo. O tradicional shalom, saudação hebraica que significa “paz e bem-estar”, passa a ter um sentido ampliado e mais profundo: reconciliação do pecador com Deus (Rm 5.1,10; Ef 2.16; Cl 1.21,22).
6 E, se houver ali um filho de paz, repousará sobre ele a vossa paz; e, se não, ela retornará para vós.
7 E permanecei na mesma casa, comendo e bebendo das coisas que eles derem, porque digno é o trabalhador de seu salário. Não andeis de casa em casa. Lc 10:7
Ordem de Jesus citada em 1Tm 5.18 como Escritura, numa indicação clara de que o livro de Lucas já era considerado inspirado (canônico). Os líderes cristãos devem receber justo sustento de todas as suas necessidades. Entretanto, não devem mudar de casas (igrejas ou comunidades) apenas por interesses materiais ou melhor remuneração.
8 E, em qualquer cidade em que entrardes e eles vos receberem, comei das coisas que eles colocarem diante de vós;
9 e curai os enfermos que houver nela, e dizei- lhes: É chegado a vós o reino de Deus.
10 Mas, em qualquer cidade em que entrardes, e eles não vos receberem, saiam pelas suas ruas, e dizei:
11 Até a muita poeira da vossa cidade, que grudou em nós, sacudimos contra vós; contudo sabei disto, que o reino de Deus é chegado a vós.
12 Mas eu vos digo que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade. Lc 10:12
A proximidade do Reino tinha a ver com a pessoa de Cristo e de seus arautos (missionários), não em relação ao tempo (Mc 12.34). Apesar de Sodoma ter sido tão pecaminosa que Deus precisou destruí-la (Gn 19:24 -28; Jd 7), o povo que ali estava tendo o privilégio de ver e ouvir a Jesus, e os seus discípulos, estava contraindo culpa ainda maior, devido à sua incredulidade, a ser cobrada no Dia do Juízo final. Tiro e Sidom, cidades gentílicas da Fenícia, ainda não haviam tido a oportunidade de receber a mensagem de Cristo e observar seus milagres, oportunidade dada à maior parte da população da Galiléia. Privilégios maiores sempre resultam em maior responsabilidade.
13 Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidom se fizessem as poderosas obras que em vós foram feitas, há muito teriam se arrependido, assentados em saco e cinzas.
14 Mas haverá mais tolerância para Tiro e Sidom no dia do julgamento do que para vós.
15 E tu, Cafarnaum, exaltada até o céu, serás derrubada até o inferno. Lc 10:15
Cafarnaum foi o centro do ministério de Jesus na fronteira norte da Galiléia (Mt 4.13). Seus habitantes tiveram todas as chances para verem e ouvirem a Jesus e, a maioria, não se arrependeu. Portanto, maior será sua condenação. A palavra “inferno” vem do grego transliterado haidou ou “hades”, que corresponde à expressão hebraica do AT sheol, a qual significa: lugar dos mortos ou sepulcro.
16 Quem vos ouve, ouve a mim; e quem vos despreza, despreza a mim; e quem me despreza, despreza àquele que me enviou.
17 E os setenta retornaram com alegria, dizendo: Senhor, até os demônios se sujeitam a nós pelo teu nome.
18 E ele disse-lhes: Eu vi Satanás cair como um relâmpago do céu.
19 Eis que eu vos dou poder para pisar em serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada, de forma alguma, vos fará dano.
20 Mas não vos alegreis por isto, de que os espíritos se sujeitam a vós, mas alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão escritos nos céus. Lc 10:20
Os discípulos receberam poder e autoridade do Espírito de Deus, pela Palavra de Jesus, para expulsar demônios de todos os tipos e derrotar a Satanás e seus terríveis ataques. Esse momento histórico, contemplado pelo Senhor (Lc 10.18), representou um marco no ministério de Jesus com seus discípulos em relação ao estabelecimento do Reino de Deus. Jesus aproveita a euforia dos discípulos para lhes advertir sobre o grande perigo da arrogância, soberba e orgulho, que acomete a todos aqueles que se deixam inebriar pelas glórias do sucesso. Assim se deu a queda de Lúcifer, nome original do Diabo, em hebraico transliterado: helel, que significa: “glorioso”, “luzente”; vocábulo que a Vulgata latina traduziu pela expressão: “estrela da manhã”. Evento este, de tremendo impacto no universo e testemunhado por Jesus Cristo no céu (Is 14.12). Jesus previne aos seus discípulos para manterem a humildade e o louvor a Deus por suas virtudes e realizações. Caso contrário, correm o risco de terem o mesmo destino do império babilônico, rebaixado ao nível do pó, depois de ter sido exaltado como o mais poderoso entre os poderosos reinos da terra. O próprio rei da Babilônia (região onde hoje se localiza o Iraque) foi usado pelos profetas do Senhor como da “besta”, que se reerguerá e comandará a Babilônia dos últimos dias (Ap 13.4; 17.3; segundo a descrição do dirigente de Tiro em Ez 28). O próprio Satanás, ao admirar e exaltar seus atributos pessoais – deixando de considerar que todos lhe foram concedidos por Deus, e para Sua glória – cogitou ser semelhante a Deus e por isso foi execrado da presença do Senhor, banido dos céus e rebaixado às regiões do inferno com a violência e a velocidade de um raio. Portanto, a Salvação do ser humano é mais importante que o poder para realizar maravilhas e vencer o Diabo. A Salvação nos mantém humildes diante dos grandes feitos, e nos encoraja quando erramos e caímos. Ela registra o nosso nome no céu (Sl 69.28; Dn 12.1; Fp 4.3; Hb 12.23; Ap 3.5).
21 Naquela hora Jesus alegrou-se no espírito, e disse: Eu te agradeço, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque tu ocultaste essas coisas aos sábios e prudentes, e as revelaste aos bebês; sim, Pai, porque assim pareceu bom à tua vista. Lc 10:21
Uma das principais características do evangelho escrito por Lucas é mencionar a alegria e felicidade por mais de 20 vezes, o cântico e a glorificação de Deus (Lc 1.64; 2.13; 2.28; 5.25; 7.16; 13.13; 17.15; 19.37; 24.53). Nossa maior alegria não deve estar nas coisas nem nas pessoas, mas no fato de termos sido eleitos para a Salvação pelo amor onisciente de Deus, condição privilegiada, que jamais será anulada (Ef 1.4), a qual devemos honrar. Jesus demonstra seu grande júbilo (em grego: agalliaõ, que significa: “exultação”, “demonstração pública de gozo profundo”). O motivo de tamanho contentamento de Jesus foi testemunhar a revelação da justiça e bondade de Deus para com os humildes em detrimento dos arrogantes e soberbos. A alegria da redenção (Lc 1.14,47; Atos 2.26; 1Pe 4.13), da qual o Espírito Santo é o agente do gozo espiritual (Gl 5.22 e Fp 4.4).
22 Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e nenhum homem sabe quem é o Filho, senão o Pai, nem quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Lc 10:22
Deus entregou a Seu Filho, Jesus, a chave da reconciliação definitiva entre o Criador e a humanidade: o Evangelho (1Co 15:1 -3). Essa revelação não vem dos pais (tradição judaica), mas do Pai em Cristo (Jo 14:6 -11).
23 E, ele retornando aos seus discípulos, disse- lhes em particular: Abençoados são os olhos que veem as coisas que vós vedes, Lc 10:23
A fé abre a visão para a verdade, a realidade de Jesus, o Cristo (Messias), e o Reino. Enquanto, o pecado, cega a humanidade (Jo 9:39 -41).
24 porque eu vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver as coisas que vós vedes, e não as viram, e ouvir as coisas que ouvis, e não as ouviram.
25 E, eis que se levantou certo jurista tentando- o e dizendo: Mestre, o que eu farei para herdar a vida eterna? Lc 10:25
A palavra grega transliterada nomikos, significa originalmente: “advogado”, como consta da Bíblia King James desde 1611. As versões posteriores usaram expressões como “intérprete”, ou ainda “perito na lei”. Tratava-se de um teólogo judeu, autoridade na Lei (a Torá) de Deus (Lc 11.45) e que nesta passagem procura submeter Jesus à prova (Mt 4.7; Tg 1.3), mas é provado pelo Senhor através de seus próprios argumentos legalistas.
26 E ele lhe disse: O que está escrito na lei? O que lês?
27 E, ele respondendo, disse: Tu amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com todas as tuas forças, e com toda a tua mente; e o teu próximo como a ti mesmo.
28 E ele disse-lhe: Tu respondestes corretamente; faze isso e viverás. Lc 10:28
Em outra situação Jesus agrupa os mandamentos formando um só (Mt 22:35 -40; Mc 12:28 -32 com base em Dt 6.5; Lv 19.18). Se considerarmos que o amor tem quatro aspectos (coração, alma, forças e entendimento ou inteligência – como aqui e em Mc 12.30), ou apenas três (Dt 6.5; Mt 22.37; Mc 12.33), o princípio maior a ser observado é a ampla e irrestrita dedicação do nosso ser a Deus. Esses dois mandamentos resumem toda a Lei (Rm 13.9). Como – após a Queda (Gn 3) – tornou-se impossível ao ser humano, cujo pecado habita no coração, atingir esse padrão; Cristo o fez por nós: a dupla Lei do Amor (1Jo 4:7 -19).
29 Mas ele, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? Lc 10:29
O advogado busca demonstrar o valor de sua questão. No entanto, oferece ainda mais elementos para que Jesus destrua os argumentos da Lei e revele a verdade da Graça. A autojustificação ambicionada pelo mais rigoroso fariseu (Lc 18:9 -14; Fp 3.6) é negada na parábola do Bom Samaritano. A justiça do sacerdote, que representa a suprema autoridade religiosa, e a do levita (que trabalhavam em parceria no templo a serviço de Deus) ainda que zelosos no cumprimento da Lei, omitem o verdadeiro “amor de Deus” (Lc 11.42) e passam “de largo” (pelo outro lado da estrada) para evitar um contato frontal com aquele ser humano (semelhante e próximo) mortalmente ferido.
30 E, respondendo Jesus, disse: Um certo homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu entre ladrões, os quais o despojam, e o feriram, e partiram, deixando-o quase morto.
31 E, por acaso, descia pelo mesmo caminho um certo sacerdote; e quando ele o viu, passou pelo outro lado.
32 E assim também um levita, quando chegou ao lugar e o viu, ele passou pelo outro lado.
33 Mas um certo samaritano, estando de viagem, chegou até ele; e, vendo-o, teve compaixão dele. Lc 10:33
Jesus usa de certa ironia ao eleger como o benfeitor da história um samaritano. Considerado pelos judeus da época como o mais asqueroso dos hereges, excluído do direito de ser “próximo” do judeu, um pecador tanto em relação à doutrina como à prática da religião (Jo 4.20); mesmo assim, era capaz de compadecer-se e ter misericórdia de um inimigo necessitado, sacrificando-se e pagando alto preço para salvá-lo. Dois denários de prata correspondiam a dois dias de trabalho e eram suficientes para custear cerca de dois meses numa hospedaria. Uma ilustração clara da obra de Cristo por nós (Rm 5.8).
34 E, aproximando-se dele, atou-lhe as feridas, derramando nelas azeite e vinho, e, pondo- o sobre seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.
35 E, no dia seguinte, partindo, ele tirou dois denários, e deu-os ao hospedeiro, e disse- lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares, na minha volta eu te pagarei.
36 Ora, qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu entre os ladrões?
37 E ele disse: O que mostrou misericórdia para com ele. Então, disse Jesus: Vai, e faze tu do mesmo modo.
38 Ora, aconteceu que, indo eles, entraram em uma aldeia; e uma certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. Lc 10:38
Maria e Marta eram irmãs de Lázaro (Jo 11; 12:1 -3), grandes amigos de Jesus. Viviam em Betânia, um povoado que ficava a uma distância de quatro quilômetros de Jerusalém. Jesus ensina a Marta, e a nós, que freqüentemente aplicamos nossas forças e preocupações na performance (realizar, conquistar). Quando o correto, mais sábio e proveitoso é empenhar nossos sentidos a ouvir e adorar o Senhor, assim como fez Maria. Esse princípio oferece o equilíbrio ideal em relação ao estímulo para o serviço que aprendemos com a parábola do Bom Samaritano. Em vez da preocupação e ansiedade pelo servir um banquete digno do Senhor, um prato seria suficiente; e Maria preferiu o banquete espiritual aos pés de Cristo: a melhor causa (Atos 6.2,4; Mc 10.45; Jo 4:32 -34).
39 E ela tinha uma irmã, chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra.
40 Marta, porém, estava atarefada com muito serviço, e, vindo até ele, disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe servir sozinha? Ordena, portanto, que ela me ajude.
41 E, Jesus respondendo, disse-lhe: Marta, Marta, tu estás cuidadosa e perturbada com muitas coisas;
42 mas uma coisa só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tomada.