Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 5
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1 E aconteceu que, apertando-o a multidão para ouvir a palavra de Deus, ele estava junto ao lago de Genesaré, Lc 5:1
Lucas é o único dos evangelistas que se refere ao grande lago da Galiléia, que fica a 220m abaixo do nível do mar e mede 21 km de comprimento por 12 km de largura, chamando-o, de forma tecnicamente correta, de lago. Os demais escritores o chamam de “mar da Galiléia”, e João o denomina por duas vezes de “mar de Tiberíades” (Jo 6.1; 21.1).
2 e viu dois barcos parados junto ao lago; mas os pescadores tinham descido deles, e estavam lavando suas redes.
3 E, ele entrou em um dos barcos, que era de Simão, e lhe pediu que o afastasse um pouco da terra. E sentando-se, ensinava do barco a multidão. Lc 5:3
O barco de Pedro foi posicionado de forma estratégica de modo que Jesus pudesse ser visto e ouvido por toda a multidão. Além disso, era costume judaico que um mestre ao ensinar, deveria fazê-lo assentado, bem como seus ouvintes, para que a comunicação se desse da maneira mais confortável possível.
4 E, quando ele terminou de falar, disse a Simão: Velejai para o profundo, e lançai as redes para um arrastão.
5 E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, nós trabalhamos toda a noite, e nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, eu lançarei a rede. Lc 5:5
A palavra “Mestre”, em grego transliterado: epistata, só aparece em Lucas, e significa: “aquele que tem o direito de mandar”. Quando todos os indicativos apontavam para um novo insucesso: o melhor horário para a pesca era durante a noite e não em pleno dia; a experiência profissional de Pedro e de seus companheiros contra a inexperiência de Jesus no ramo, pois era um carpinteiro ligado às artes e letras; o fato de terem trabalhado arduamente durante toda aquela noite e terem apenas sujado as redes, Pedro decide obedecer à Palavra de Jesus. Preparou e lançou sua rede com esperança.
6 E, fazendo assim, eles pegaram uma grande quantidade de peixes; e a rede se rompia.
7 E eles acenaram aos seus companheiros, que estavam no outro barco, para virem ajudá- los. E eles vieram, e encheram ambos os barcos, a ponto de começarem a afundar. Lc 5:7
Curiosamente a expressão grega transliterada: buthizesthai (que significa: afundar), usada por Lucas, traduzida em algumas versões por irem a pique e aqui por começarem a afundar, tem a ver com a mesma expressão usada em 1Tm 6.9, onde descreve o mergulho para a perdição daqueles que ambicionam exclusivamente as riquezas materiais.
8 E vendo isso Simão Pedro, caiu de joelhos diante de Jesus, dizendo: Afasta-te de mim, Senhor, porque eu sou um homem pecador.
9 Pois ele estava admirado, e todos os que estavam com ele, diante do arrastão de peixes que haviam feito. Lc 5:9
Pedro assombrou-se mais com sua falta de fé e indignidade do que com o evento em si. Ele tinha confiança em Jesus, mas não tinha certeza absoluta de que o milagre se daria, ainda mais naquelas proporções. A reação de Pedro revela a atitude normal de todas as pessoas ao chegarem sinceramente à conclusão de que são pecadores e indignos de permanecerem na presença santa de Deus; portanto carentes e dependentes absolutamente da graça do Senhor (Ap 6.16). Desta mesma maneira se sentiram os grandes líderes espirituais da antiguidade. Entre eles: Abraão (Gn 18.27); Jó (Lc 42.6) e Isaías (Lc 6.5).
10 E assim também estavam Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante tu pescarás homens. Lc 5:10
É digno de nota o fato de Jesus haver escolhido seus discípulos entre homens que estavam dedicados a um trabalho árduo, não entre líderes religiosos preguiçosos e desocupados. Contudo Pedro foi convocado duas vezes para servir a Cristo após duas pescarias milagrosas. Primeiro para o discipulado e algum tempo mais tarde, para o apostolado (Jo 21:1 -18), quando – uma vez mais – achava-se indigno para o ministério.
11 E, levando os seus barcos para terra, eles abandonaram tudo, e o seguiram. Lc 5:11
Jesus já conhecia esses homens aos quais agora faz uma convocação formal (Jo 1:40 -42; 2.1,2). Os originais e outras passagens dão a entender que eles não abandonaram tudo de forma irresponsável e tresloucada; mas sim que renunciaram a seus lucros – especialmente os dessa última pescaria – e entregaram a administração da empresa a Zebedeu, pai de João e Tiago, ou a outros membros da família (Mt 4:18 -22).
12 E aconteceu que, estando ele em uma daquelas cidades, eis que um homem cheio de lepra, vendo a Jesus, caiu sobre a sua face, e pediu-lhe, dizendo: Senhor, se tu quiseres, podes purificar-me. Lc 5:12
A expressão original grega, muito usada em escritos médicos da época, e aqui traduzida como “lepra”, refere-se a uma série de doenças e cânceres de pele. Os evangelhos sinóticos registram esse acontecimento de forma diferente: Mateus o cita como parte de uma galeria de milagres (Mt 8:1 -4). Marcos e Lucas o colocam como um dos primeiros sinais maravilhosos realizados por Jesus no início de sua peregrinação pela Galiléia. O homem doente e transfigurado por uma doença que o excluía socialmente, contrariando a Lei (Lv 13), busca a Jesus com todas as suas forças como única solução para seu grave problema. Ele se aproxima do Senhor com fé, humildade e vontade de obedecer ao que Jesus lhe mandasse fazer; exatamente como todo pecador arrependido deve agir. O perdão assim como a cura se materializam instantaneamente ao toque do Senhor, e o homem renasce, livre do pecado e da enfermidade que o escravizavam.
13 E ele colocou a sua mão e tocou-o, dizendo: Eu quero, seja purificado. E imediatamente a lepra o deixou.
14 E ele ordenou-lhe para que não contasse a nenhum homem: Mas vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela tua purificação, conforme Moisés ordenou, como testemunho para eles. Lc 5:14
Jesus tentava evitar que o povo interpretasse mal sua pessoa e ministério, pois muitos o aclamavam como grande curandeiro, milagreiro e líder nacionalista revolucionário, que era a visão simplista que alimentavam quanto ao Messias prometido. Além disso, suas atitudes começavam a irritar os líderes religiosos e provocavam neles enorme inveja e medo de perderem o poder sobre o povo. Jesus manda que o homem vá apresentar-se ao sacerdote de plantão; e com isso, o estimula a guardar a Lei, apresentar todas as provas de sua cura e receber a certidão ritual de purificação para que pudesse ser reintegrado à sociedade (Mt 8.4; 16.20; Mc 1.44).
15 A sua fama, porém, se propagava ainda mais; e grandes multidões se ajuntavam para ouvi-lo, e para serem por ele curadas de suas enfermidades.
16 E ele retirou-se para os desertos para orar.
17 E aconteceu que, em um certo dia, enquanto ele estava ensinando, estavam ali assentados fariseus e doutores da lei, que tinham vindo de todas as aldeias da Galileia, e da Judeia, e de Jerusalém; e o poder do Senhor estava presente para curá-los. Lc 5:17
Os fariseus (em hebraico original: separados), citados aqui por Lucas pela primeira vez, mas que já haviam questionado o ministério e a pessoa de Jesus anteriormente, eram mestres autoritários e muito respeitados nas sinagogas. Formavam uma confraria e um partido político, com mais de seis mil membros, espalhados por toda a Palestina. Eles se autodenominavam “guardiões da Lei”. Pregavam que suas tradições e interpretações teológicas eram tão importantes quanto as Escrituras Sagradas (Mc 7:8 -13). Jesus já havia confrontado alguns líderes judaicos em Jerusalém (Jo 5:16 -18). Agora o seguiram até uma casa em Cafarnaum, com o objetivo de analisar suas palavras e vigiar seus movimentos. Os “escribas” (Lc 5.21) eram estudiosos com grande habilidade para a escrita (arte rara na época, permitida apenas aos homens, e de muito prestígio). Eles eram responsáveis pelo estudo, interpretação e ensino da Lei (escrita e oral) e das tradições judaicas. A maioria dos “escribas” pertencia ao partido (popular) dos fariseus e os demais eram vinculados ao partido aristocrático dos saduceus.
18 E, eis que uns homens, traziam em uma maca um homem paralítico; e buscavam meios de levá-lo, e colocá-lo diante dele.
19 E, eles não encontrando um caminho pelo qual o pudessem levá-lo por causa da multidão, subiram ao telhado, e desceram- no pelas telhas com a sua maca para o meio, diante de Jesus. Lc 5:19
O estilo palestinense de construção já havia incorporado a maneira greco-romana de cobrir as casas com uma espécie de laje pré-moldada em ladrilhos de barro cozido (Mc 2.4).
20 E, ele vendo a fé deles, disse-lhe: Homem, os teus pecados te foram perdoados. Lc 5:20
A grande causa das doenças no mundo reside no pecado: nos cometidos por cada um de nós em função de nossas vontades perversas (Jo 9.3), e naqueles praticados pela humanidade como um todo desde a Queda (Gn 3). O homem paralítico, pela fé, reconhece o pecado como a raiz do seu problema e, por isso, obedece à ordem de Cristo. Os amigos revelam igualmente grande fé em Jesus e amor ao amigo incapacitado, e não desistem ao primeiro obstáculo, pelo que também são abençoados. Esse episódio nos leva a concluir que a oração e o esforço dos amigos e parentes em levar seus “atrofiados pelo pecado” ao Senhor, serão eficazes e galardoados com alegrias espirituais.
21 E os escribas e os fariseus começaram a argumentar, dizendo: Quem é este que fala blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus? Lc 5:21
Para os fariseus e os escribas (doutores da Lei), a blasfêmia (palavra que ultraja a Deus ou a religião), era o pecado mais grave e terrível que alguém poderia cometer, sendo sujeito à pena de morte (Mc 14.64).
22 Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, disse-lhes: O que argumentais em vossos corações?
23 O que é mais fácil dizer: Os teus pecados foram perdoados; ou dizer: Levanta-te, e anda? Lc 5:23
Aqui temos mais uma evidência da divindade de Jesus, pois ele conhece plenamente os pensamentos e os mais profundos sentimentos de cada ser humano (Mc 2.8). Os corações das pessoas, quando não entregues ao Senhor, são levados a condenar tudo o que se refere a Deus e à verdade. A cura para Deus é um ato muito mais fácil do que levar o homem a reconhecer seus pecados e decidir por uma vida de adoração espontânea ao Criador. A restauração de um doente pode ser comprovada num instante, mas a restauração da alma pode levar algum tempo, e somente Deus é capaz de atestar esse milagre (Mc 2:9 -10).
24 Mas para que possas saber que o Filho do homem tem poder sobre a terra para perdoar pecados (ele disse ao paralítico), digo-te: Levanta- te, toma a tua maca, e vai para tua casa.
25 E imediatamente, levantando-se diante deles, e tomando o que estava deitado, ele partiu para sua própria casa, glorificando a Deus. Lc 5:25
A autoridade de Jesus não era humana, nem fora outorgada por líderes religiosos, mas sim de Deus. O vocábulo grego transliterado: exousia, que significa: “proveniente de Deus” (Mt 28.18), enfatiza este atributo de Jesus. Seu título: “Filho do homem”, bem como sua plena divindade, são prerrogativas exclusivas do Messias (o Cristo) prometido (Dn 7.13,14). A operação de milagres e maravilhas é uma prova da presença do Rei e do Reino entre nós (Lc 10.9).
26 E todos ficaram maravilhados, e glorificaram a Deus, e ficaram cheios de temor, dizendo: Hoje nós vimos coisas estranhas.
27 E, depois dessas coisas, ele saiu, e viu um publicano, de nome Levi, sentado na coletoria; e disse-lhe: Segue-me.
28 E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu. Lc 5:28
Levi era o nome de família de Mateus (Lc 3.12; Mc 2.14), o apóstolo rico do colegiado de Jesus (Mt 10.3; Atos 1.13). Como “publicano”, chefe dos fiscais da coletoria de impostos para o governo romano, a serviço do tetrarca Herodes (Mt 9.9), era odiado pelo povo judeu, pois os publicanos eram, em geral, desonestos e maldosos. Jesus havia ministrado em Cafarnaum durante algum tempo, quando conheceu Levi e se tornaram amigos. Alguns discípulos de Jesus, que eram pescadores, voltaram a trabalhar em seu ramo em certas ocasiões. Mateus tomou uma decisão só de ida. Sabia que o preço de seguir a Jesus implicaria em mudança total de vida sem direito a volta, ainda que momentânea. Entretanto, Levi o fez com grande alegria de alma. E ao invés de o fazer em surdina, deu uma grande festa “evangelística”, convidando todos os seus amigos para verem e conhecerem o Messias que lhe confiara a gloriosa missão de proclamar Seu Reino e libertar a todos das ilusões e das amarras do pecado. Conta-se ainda que, após a ressurreição de Jesus, Mateus foi um valoroso missionário em muitos lugares da Palestina e em terras distantes, onde morreu.
29 E fez Levi uma grande festa em sua própria casa; e ali havia uma grande companhia de publicanos e outros que estavam sentados com ele.
30 Mas os escribas deles, e os fariseus, murmuravam contra os seus discípulos, dizendo: Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores?
31 E Jesus, respondendo, disse-lhes: Os sãos não necessitam de médico, mas aqueles que estão enfermos.
32 Eu não vim para chamar os justos, mas pecadores ao arrependimento. Lc 5:32
Os publicanos se davam bem com os “pecadores”. Enquanto os primeiros extorquiam e roubavam seus próprios irmãos judeus; os outros, tratavam com desleixo os diversos preceitos cerimoniais exigidos pelos fariseus e escribas. Contudo, os dois grupos não tinham paz nem desfrutavam de alegria real em seus corações. Enquanto os líderes religiosos e mestres da época procuravam a salvação por meio da segregação, ou seja, “seleção natural dos mais dedicados no cumprimento formal das inúmeras leis judaicas”, Jesus chegava com Seu Reino oferecendo a Graça de Deus aos que, de coração sincero, desejassem simplesmente amar a Deus de verdade e viver este ato de adoração no dia-a-dia. Esta proposta de Deus tocou as almas espiritualmente famintas dos publicanos e pecadores, que não tiveram muita dificuldade para enxergar seus muitos erros, e arrependidos, sentiram-se bem-vindos ao banquete de Jesus. Já os fariseus e escribas tinham grande dificuldade para reconhecer qualquer pecado em si mesmos; e, por isso, ficaram fora da festa. Um dos principais temas das parábolas de Jesus sobre a salvação eterna é: os que se julgam justos, separam-se da Graça Salvadora de Cristo (Lc 18:9 -14; Mc 2.17).
33 E lhe disseram: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, e semelhante os discípulos dos fariseus, mas os teus comem e bebem? Lc 5:33
João Batista não era o Filho de Deus. Porém, veio com uma missão poderosa e específica: preparar o coração da humanidade para a chegada de Cristo e a implantação do Reino de Deus. João foi criado e educado no deserto, junto a um grupo de judeus teologicamente muito restritos e sérios em relação a Deus. Aprendeu a sobreviver com uma dieta limitada e austera, própria do lugar que habitava, composta de uma espécie de gafanhotos (que até hoje são torrados e degustados pelo povo da região) e mel silvestre. Seu ministério foi marcado por uma mensagem urgente, grave, forte e direta quanto ao arrependimento dos pecados, mediante testemunho público e um ritual de passagem pelas águas, repleto de simbolismos ligados à implementação do Reino, que se completaria com o batismo trazido por Jesus Cristo: o Filho de Deus. Os fariseus também pregavam um modo de vida rigoroso (Lc 18.12). Mas Jesus aceitava convites para casamentos, banquetes e festas, pois tinha interesse em estar onde mais se precisava dele: no coração daqueles que se reconhecem perdidos e necessitados da direção e do amor de Deus. Embora Jesus rejeitasse todo o tipo de atitude apenas legalista e exterior, com finalidade de autoglorificação (Is 58:3 -11), é fato que ele próprio jejuava e orava muito em particular e defendia o jejum voluntário para benefício espiritual (Mt 4.2; 6:16 -18).
34 E ele lhes respondeu: Podeis fazer com que os filhos das núpcias jejuem, enquanto o noivo está com eles?
35 Mas dias virão em que lhes será tirado o noivo, e então, naqueles dias, eles jejuarão. Lc 5:35
Neste trecho, Jesus faz a primeira referência à sua morte. A tristeza e a vontade de estar com o Senhor levaria seus discípulos ao jejum e à oração até o seu glorioso retorno e o final dos tempos (Mt 28.20). A Igreja primitiva ensinou e praticou o jejum com orações, especialmente nas épocas de provação e dificuldades (Atos 9.9; 13.2,3; 14.23).
36 E ele também falou uma parábola para eles: Nenhum homem põe um pedaço de uma roupa nova sobre uma velha; do contrário a nova rasga a ambos. E o pedaço que foi tirado da nova não combina com a velha.
37 E nenhum homem põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho novo romperá os odres e se derramará, e os odres se perderão.
38 Mas vinho novo deve ser posto em odres novos, e ambos são preservados.
39 E nenhum homem tendo bebido o vinho velho quer logo o novo; porque diz: O velho é melhor. Lc 5:39
Assim como seria tolice estragar uma veste nova para remendar outra roupa, o novo Caminho oferecido graciosamente por Jesus, não pode ser remendado e estragado com os antigos rituais e obrigações cerimoniais, exclusivamente legalistas e exagerados do judaísmo (como o fato de não mencionar o nome de Deus, apenas para evitar pronunciá-lo em vão). Ainda que o AT esteja intimamente relacionado ao NT, que é o cumprimento das promessas registradas nas Sagradas Escrituras do AT, é preciso cuidado para não se confundir profecias com o seu cumprimento, nem as sombras com a realidade (Gl 5:1 -6). Somos livres em Cristo, para adorar a Deus com toda a sinceridade de nossos corações, na beleza da santidade do Senhor (Rm 3.28).