Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Mat 14
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1 Nesse tempo Herodes, o tetrarca, ouvindo a fama de Jesus,
2 disse aos seus servos: Este é João, o Batista; ele ressuscitou dos mortos, e por isso obras poderosas atuam nele.
3 Pois Herodes, havendo prendido a João, o amarrou, e o colocou na prisão, por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe;
4 porque João lhe dizia: Não te é lícito possuí- la.
5 E querendo matá-lo, temia o povo; porque o consideravam um profeta.
6 Celebrando-se, porém, o aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou diante deles, e agradou a Herodes.
7 Perante isso prometeu, com juramento, dar-lhe tudo o que pedisse.
8 E ela, tendo sido anteriormente instruída por sua mãe, disse: Dá-me aqui, em um prato, a cabeça de João, o Batista. Mt 14:8
Herodes Antipas, que reinou de 4 a.C. a 39 a.D., era o tetrarca (em grego tetrarches), ou seja, “aquele que rege uma quarta parte do império”, no caso, a quarta parte da Palestina, mais a Galiléia e a Peréia, que foi herança de seu pai Herodes, o Grande (Mt 2.1,22), quando dividiu seu reino entre quatro de seus muitos filhos. Depois das maravilhosas viagens de Jesus pela Galiléia, muito cresceu sua fama em todas as regiões vizinhas, originando muitas idéias sobre sua pessoa e missão (Mt 16:13 -14). A consciência pagã, supersticiosa, culpada e amedrontada de Herodes, o fez criar a teoria de que Jesus seria a encarnação do espírito de João Batista que ele mandara decapitar (Mc 6.16). Herodias era ex-esposa do meio irmão de Herodes, Filipe, tio de Herodias. Ela fora persuadida a abandonar o marido para casar-se com Herodes Antipas, cometendo assim, incesto (Lv 18.16; 20.21). João Batista falou francamente com o tetrarca e o chamou ao arrependimento; e Herodes sabia que João era homem de Deus e estava certo em sua denúncia (Mc 6.20). Salomé, filha de Herodias, tinha cerca de 20 anos e dançou de forma lasciva diante de muitas autoridades, agradando a todos, em especial a Herodes. O grande historiador judeu Flávio Josefo, que viveu entre os séculos I e II, conta que Salomé veio a se casar com um tio-avô, também chamado Filipe (filho de Herodes, o Grande), que reinou sobre as terras do norte (Lc 3.1). O prato (Mt 14.11), no qual a cabeça de João é apresentada, era uma peça de madeira onde serviam as carnes nas festas. João permanecera por mais de um ano no cativeiro, devido à indecisão de Herodes, que além de permitir a visita dos discípulos de João, também gostava de ouvir o profeta (Mt 11.2).
9 E o rei se arrependeu; contudo, por causa do juramento, e dos que estavam à mesa com ele, ordenou que se lhe desse.
10 E ele mandou decapitar João na prisão.
11 E a sua cabeça foi trazida em um prato, e dada à moça, e ela a levou para a sua mãe.
12 E vindo os seus discípulos, e levaram o corpo, e o enterraram; e foram dizer a Jesus.
13 Ouvindo Jesus isso, partiu dali em um barco, para um lugar deserto, à parte; e, sabendo- o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades.
14 E, Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e movido de compaixão por eles, curou os seus enfermos.
15 E, chegada a tarde, os seus discípulos aproximaram- se dele, dizendo: O lugar é deserto, e a hora já é passada; despede a multidão, para que indo às aldeias, comprem mantimentos.
16 Mas Jesus lhes disse: Eles não precisam partir; dai-lhes vós de comer.
17 E eles lhe disseram: Nós não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
18 Ele disse: Traga-os aqui para mim.
19 E, ordenando a multidão para que se assentasse sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes, e, erguendo os olhos ao céu, ele os abençoou, e partindo os pães, deu- os aos seus discípulos, e os discípulos à multidão. Mt 14:19
Jesus, triste pela morte do grande amigo João, e não querendo ser confundido com o líder militar que muitos esperavam que fosse, busca a solitude, um tempo a sós para orar e refletir. Atravessa o mar da Galiléia, deixando Cafarnaum e os territórios de Herodes Antipas, e segue em direção a Betsaida Júlia. A multidão, entretanto, o vê partir só e caminha cerca de 8 km por uma região deserta até se encontrar com Cristo nos planaltos do território de Felipe. Era alta primavera na Palestina (que começa no meio de fevereiro), os campos estavam cobertos de relva e a Páscoa dos judeus estava próxima (Jo 6.4). Jesus se coloca entre a multidão como o pai no meio de sua família. Esse é o único milagre de Jesus, registrado por todos os evangelistas (Mc 6:30 -46; Lc 9:10 -17; Jo 6:1 -15). Mateus, entretanto, não tem uma preocupação cronológica em relação aos fatos, narra a história no passado (Mt 14.1,2,13), pois deseja apresentá-la de modo que as pessoas a gravem na memória. De acordo com a tradição judaica, o chefe da família proferia, no início de cada refeição, sobre o pão que ele partia, uma “oração de agradecimento” que era chamada de “bênção” e, por isso, na KJ de 1611, esse termo aparece como blessed (abençoou). Jesus estava revelando ao povo que, assim como o Pai libertou seu povo do Egito e os alimentou no deserto, Ele estava novamente no meio do seu povo para os salvar, curar e alimentar. A palavra grega original kophinous, traduzida em Mt 14.20 como “cestas” refere-se a uma pequena cesta de vime ou folhas de palma, usada para compras domésticas. A “bênção” não acontece por ser costume, mas porque por meio de Jesus, a fórmula é preenchida com um novo conteúdo: a presença do Cristo, que abre o acesso ao Pai (Jo 1.51). O povo e especialmente os discípulos viram que a ação de graças de Jesus produziu milagres, e aprenderam que um método milagroso que traz bênçãos é agradecer pelo pouco que temos, e dividi-lo com o próximo.
20 E todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobraram tomaram doze cestos cheios.
21 E os que haviam comido eram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.
22 E logo Jesus compeliu os seus discípulos a entrar no barco, e passar adiante dele para o outro lado, enquanto ele mandava a multidão embora.
23 E, mandado a multidão embora, ele subiu para o monte, para orar à parte. E vindo a noite, ele estava ali sozinho.
24 O barco, porém, estava já no meio do mar, agitado pelas ondas; porque o vento era contrário.
25 Mas, à quarta vigília da noite, Jesus foi até eles, andando sobre o mar. Mt 14:25
Jesus “insistiu” para que os discípulos saíssem depressa. A palavra grega usada aqui é enfática e significa “compeliu”, sugerindo uma forte transição. João registra que depois do milagre dos pães e peixes, as multidões pretendiam proclamar Jesus rei dos judeus, à força (Jo 6.15), o que indicava uma compreensão totalmente errada da missão de Cristo; nesse momento os discípulos também haviam sido influenciados por essas idéias e Jesus precisou ser enérgico com eles e enviá-los para o outro lado do mar. O dia judaico, isto é, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo, era dividido em três partes: manhã, meio-dia e tarde (Sl 55.17). Os judeus distinguiam duas tardes no dia: a primeira começava por volta das três horas, e a segunda ao pôr-do-sol (Êx 12.6, literalmente: entre as tardes). Portanto, os judeus contavam apenas três vigílias. No Mt 14.13, trata-se da primeira tarde; no Mt 14.23 refere-se à segunda. Mateus faz registro de Jesus orando apenas aqui e no Getsêmani (Mt 26:36 -46). Para os romanos, entretanto, a noite era dividida em quatro vigílias: 1) das 18 às 21h. 2) das 21h à meia noite. 3) da meia noite às 3h e 4) das 3h às 6h. O estádio (em grego stadion), termo que aparece em algumas versões, equivalia a 1/8 de milha romana, ou cerca de 185 metros. Durante a madrugada, Jesus se aproxima do barco sobre o mar revolto e lhes pede para ter bom ânimo (na KJ de 1611 Be of good cheer!). Literalmente: “tenham coragem”. E, em seguida, revela a razão de se ter ânimo (coragem) e esperança no meio das aflições: Sou Eu, mas que no original vem grafado: Eu Sou (em grego egô eimi), o nome e o caráter de Deus (Êx 3.14). A proximidade do Senhor lança fora todo temor, destrói o mal e enche a alma de paz, alegria e vontade renovada de viver. Por isso, no Reino de Deus, ser é mais importante que ter.
26 E quando os discípulos o viram andando sobre o mar, eles perturbaram-se, dizendo: É um espírito; e gritaram de medo.
27 Mas imediatamente Jesus falou com eles, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais.
28 E Pedro respondeu, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas.
29 E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir até Jesus.
30 Mas ele vendo que o vento era forte, teve medo; e, começando a submergir, clamou, dizendo: Senhor, salva-me!
31 E imediatamente Jesus, estendendo a sua mão, segurou- o, e disse-lhe: Oh! pequena fé, por que tu duvidaste?
32 E, eles subindo ao barco, o vento cessou.
33 Então os que estavam no barco , vindo, o adoraram, dizendo: Verdadeiramente tu és o Filho de Deus. Mt 14:33
Apenas Mateus registra esse episódio na vida de Pedro. A expressão em aramaico, usada pelos discípulos para concluir tudo o que se passou naquela madrugada no meio do mar da Galiléia, aqui traduzida como Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus, significa que aqueles homens haviam reconhecido, sem sombra de dúvida, que Jesus de Nazaré e Deus (Yahweh) são a mesma pessoa. Genesaré, também conhecida como Planície Estreita, ficava do lado ocidental do mar da Galiléia, ao norte de Magdala. Essa planície era um grande jardim na Palestina, fértil e todo irrigado, com cerca 6,5 km de extensão e 3 km de largura. As pessoas receberam a Jesus com grande fé, e muitas maravilhas Ele realizou ali (Mc 5.28; Atos 19.12).
34 Ora, terminada a travessia, chegaram à terra de Genesaré.
35 E, quando os homens daquele lugar o conheceram, eles enviaram por toda aquela região em redor, e trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos.
36 E pediram-lhe que ao menos eles pudessem tocar a orla da sua veste, e todos quantos a tocavam ficavam perfeitamente sãos.