Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Mar 4
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1 E ele começou outra vez a ensinar à beira do mar; e havia se juntado a ele uma grande multidão, de modo que ele entrou num barco sobre o mar, e assentou-se; e toda a multidão estava em terra junto ao mar. Mc 4:1
Jesus posicionou-se de forma a facilitar a transmissão do ensino para um grande número de pessoas de uma só vez. Precisava evitar também o assédio das massas que literalmente o sufocavam na busca exclusiva da cura física. Jesus deseja ensinar seu povo a viver em plena comunhão com Deus, e esse era um desafio maior do que curar as enfermidades do corpo. Sentar-se era a postura tradicional dos mestres judeus da época (Mt 5.1; Lc 5.3; Jo 8.2).
2 E eles ensinava-lhes muitas coisas por parábolas, e lhes dizia na sua doutrina: Mc 4:2
As parábolas eram histórias tiradas da vida diária e usadas para ilustrar verdades espirituais e morais (Mt 13.3). Muitas vezes na forma de comparações, analogias ou ditos proverbiais. Essas histórias eram um valioso recurso didático usado pelos grandes mestres (2Sm 12:1 -7 e Talmude). Conquistavam a atenção, prendiam o interesse, tornavam concretas idéias abstratas, levavam o ouvinte a uma decisão correta, e, no caso de Jesus, guardavam em sigilo o mistério do Reino para os desprovidos de interesse em adorar sinceramente a Deus e desenvolver uma sociedade justa (Mt 4:11 -12; Lc 4.23, 15.3).
3 Ouvi: Eis que saiu um semeador a semear;
4 e aconteceu que, ao semear, algumas caíram à beira do caminho, e vieram as aves do céu e as devoraram.
5 E algumas caíram em lugares pedregosos, onde não havia muita terra; e imediatamente brotaram, porque não havia terra profunda;
6 mas, saindo o sol, queimaram-se; e porque não tinham raiz, murcharam-se.
7 E outras caíram entre espinhos, e os espinhos cresceram e as sufocaram, e não produziram fruto.
8 E outras caíram em boa terra, e deram fruto, vingando e crescendo; e produziram, algumas trinta, algumas sessenta, e outras cem. Mc 4:8
As sementes eram lançadas com o auxílio das mãos naquela época, e isso para que caíssem exatamente nas covas preparadas para o plantio. Entretanto, algumas caíam em terreno improdutivo. Todavia, Jesus anuncia uma colheita excepcional (Gn 26.12), chegando a render 100 plantas produtivas por semente plantada. A colheita sempre foi uma figura (símbolo) da consumação dos tempos e do Reino de Deus (Jl 3.13; Ap 14:14 -20).
9 E ele disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
10 E, estando ele só, os que estavam junto dele com os doze perguntavam-lhe acerca da parábola.
11 E ele disse-lhes: A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus; mas aos de fora todas estas coisas são apresentadas por parábolas; Mc 4:11
Em grego, a expressão “mistério” tem o sentido de “oculto”, “insondável”, “secreto”. No NT refere-se ao conhecimento do verdadeiro Deus. Verdade essa, outrora oculta, mas agora revelada na pessoa e obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Porém, esse mistério não é acessível exclusivamente à razão humana; mas, sim, ao mais profundo dos sentimentos humanos (simbolizado no ocidente pelo coração, por ser um órgão vital, além do cérebro). A vontade de buscar a Deus e submeter-se à Sua Palavra, ilumina o coração do crente. O principal mistério é a revelação de Deus e Seus propósitos na pessoa de Cristo (Mt 16.17). Por isso, todos nós que fomos contemplados com essa revelação, devemos sentir grande júbilo e comemorar a Salvação todos os dias, agindo para com Deus e na sociedade como cidadãos do Reino: com amor e reverência, graça e justiça. Compreende-se o “Reino” em dois momentos: o presente reino reconhecido pelos cristãos sinceros e que reside nos mesmos, os quais se submetem à vontade de seu Rei, Jesus Cristo, e o chamado “Reino Milenar”, que será inaugurado por ocasião da segunda (e iminente) volta de Cristo (Ap 20.2).
12 para que vendo, eles possam ver, e não percebam; e, ouvindo, eles possam ouvir, e não entendam; para que a qualquer momento, eles se convertam, e seus pecados devem ser perdoados. Mc 4:12
O estilo de pregação e ensino de Jesus se assemelha ao ministério de Isaías, o qual conquistou muitos discípulos (Is 8.16), mas igualmente desmascarou a falsidade e a dureza de muitos corações incrédulos face aos inúmeros apelos de Deus.
13 E ele disse-lhes: Não entendeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?
14 O semeador semeia a palavra;
15 e estes são os que estão à beira do caminho, nos quais a palavra é semeada; mas ouvindo- a, imediatamente vem Satanás e tira a palavra que foi semeada nos seus corações.
16 E da mesma forma são os semeados em lugares pedregosos; os quais, ouvindo a palavra, imediatamente a recebem com alegria;
17 mas não têm raiz em si mesmos, e então duraram por algum tempo; depois, sobrevindo aflição ou perseguição por causa da palavra, imediatamente se ofenderam.
18 E os semeados entre os espinhos, os quais ouvem a palavra;
19 e os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições das demais coisas, sufocam a palavra, e ela se torna infrutífera. Mc 4:19
A prosperidade, a cultura e a boa formação acadêmica podem oferecer uma falsa e temporária sensação de auto-suficiência e segurança (Mc 10:17 -25; Dt 8.17,18; 32.15; Ec 2:4 -11; Tg 5:1 -6). Por outro lado, a pobreza, as perdas e os sofrimentos, podem produzir rancor e mágoas injustas contra Deus (Ec 7.29; Rm 8.28).
20 Mas os que foram semeados em boa terra, os que ouvem a palavra e a recebem, e produzem fruto, alguns trinta vezes, alguns sessenta, e outros cem.
21 E ele lhes disse: Vem uma vela para ser colocada sob um alqueire, ou debaixo da cama? E não para ser colocada sobre um castiçal?
22 Porquanto não há nada oculto que não será manifesto; nem coisa alguma foi mantida em segredo, senão para que se torne pública.
23 Se algum homem tem ouvidos para ouvir, ouça.
24 E disse-lhes: Fiquem atentos ao que ouvis; com a medida com que medis vos medirão a vós, e a vós que ouvis ainda mais será dado.
25 Porque aquele que tem, a ele será dado; e aquele que não tem, dele será tomado até aquilo que tem. Mc 4:25
Aqui temos uma exortação para não ficarmos reclamando do que nos falta, mas juntarmos tudo o que temos – no sentido de condições humanas e recursos vários – e investirmos em nosso crescimento espiritual e humano no Reino de Deus. Deus conhece bem todas as nossas limitações e não espera que venhamos a ser perfeitos, ou consigamos isso ou aquilo, para vivermos plenamente (Jo 10.10). Quanto mais nos apropriamos da Verdade (a Palavra) agora, tanto mais recebe-remos no futuro. Se não valorizarmos e correspondermos ao pouco de revelação que temos recebido, aqui e agora, nem isso nos adiantará no futuro.
26 E ele disse: Assim é o reino de Deus, como se um homem lançasse semente à terra;
27 e vai dormir e se levanta noite e dia, e a semente brota e cresce, e ele nem sabe como.
28 Porque a terra por si mesma produz fruto, primeiro a folha, depois a espiga, e por último o grão na espiga.
29 Mas quando o fruto está maduro, logo lhe mete a foice, porque é chegada a colheita. Mc 4:29
Esta parábola foi registrada apenas no livro de Marcos. Enquanto a história do semeador revela a importância de um solo fértil para receber a boa semente (a Palavra); aqui se evidencia o poder misterioso da própria semente: com o passar do tempo, vai realizando seu trabalho de fazer germinar, crescer e dar frutos (1Pe 1:23 -25). Devemos, portanto, semear sempre e em todos os corações humanos sobre a face da terra.
30 E ele disse: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que comparação o compararemos?
31 É como um grão de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a menor de todas as sementes que há na terra;É como um grão de mostarda, que é a menor das sementes que se planta na terra.
32 mas, tendo sido semeado, cresce, e torna-se a maior de todas plantas, e cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra. Mc 4:32
Embora possua uma das menores sementes dentre as hortaliças, a mostarda palestina pode crescer até uma altura de 4 metros. A parábola ilustra a expansão poderosa e impressionante do Cristianismo em todo o mundo, apesar do seu humilde início: um pobre mestre vindo de uma inexpressiva família e cidade da Galiléia que, seguido por um pequeno grupo de homens – quase todos incultos – pregou durante alguns anos sobre a chegada do Reino, afirmando ser Deus encarnado.
33 E com muitas parábolas semelhantes, lhes dirigia a palavra, conforme podiam ouvi-la.
34 Mas sem parábolas ele não lhes falava; e quando eles estavam a sós, explicava todas as coisas a seus discípulos.
35 E, naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para o outro lado. Mc 4:35
Jesus partiu do território da Galiléia com o objetivo de ir até a margem leste do mar da Galiléia; a região dos gerasenos (Mc 5.1).
36 E, despedindo a multidão, levaram-no consigo, assim como estava, no barco; e havia também com ele outros pequenos barcos.
37 E se levantou grande tempestade de vento, e as ondas batiam no barco, de modo que já se enchia. Mc 4:37
O mar (ou grande lago) da Galiléia, localizado numa bacia cercada por montanhas, onde se destaca o monte Hermon, ainda hoje é sujeito a grandes tempestades, que descem às vezes dos altos montes e atingem com violência o lago de Quinerete (ou Tiberíades), que fica 200 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo.
38 E ele estava na parte de trás do barco, dormindo sobre uma almofada; e despertaram- no, dizendo- lhe: Mestre, não te preocupa que pereçamos? Mc 4:38
A impetuosidade e o temor dos discípulos ilustram claramente o comportamento humano diante das várias situações adversas da vida. Temos a tendência de perguntar: Por quê? Ou de instigar a Deus como se Ele fosse nosso segurança pessoal: O Senhor não está vendo? Em contraste, temos a segurança tranqüila de Jesus ao nosso lado (Lc 8.23). Mais tarde, a Igreja Primitiva veria nesta experiência um grande consolo, diante das terríveis perseguições que sofreria por amor a Cristo e à evangelização dos povos. Por isso, desde os primórdios, a figura do barco passou a ser identificada como um dos símbolos da Igreja, na arte cristã. É compreensível que sintamos medo e insegurança. Todavia, Jesus não admite que seus filhos sejam covardes (literalmente em grego, pessoas que perdem o ânimo, a vontade de lutar, e se desesperam; tímidos no sentido de medrosos – pois não confiam em um amigo que os possa ajudar). Nossa fé deve ir além da certeza de que Jesus está conosco e pode sanar qualquer dificuldade; devemos crer que – haja o que houver – Ele nos ajudará a atravessar os problemas e a chegar em terra firme (Sl 23).
39 E ele, levantando-se, repreendeu o vento e disse ao mar: Paz, aquieta-te. E o vento cessou, e houve grande calmaria.
40 E ele disse-lhes: Por que sois temerosos? Ainda não tendes fé?
41 E eles temeram muito, e diziam uns aos outros: Que espécie de homem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem? Mc 4:41
Esta é a grande e angustiante pergunta da humanidade. Todas as pessoas, um dia, terão de dar uma resposta objetiva a essa questão. Se respondermos a ela como fez Marcos (Mc 1.1), devemos seguir a Jesus como Nosso Rei e Filho de Deus. Se nossa resposta for qualquer coisa diferente disso, devemos assumir as conseqüências da incredulidade (Mc 3:28 -29). Deus demonstrou Sua presença em Cristo, e não apenas o Seu poder (Sl 65.7; 107:25 -30; Pv 30.4). Jesus ainda investiria muito tempo e energia em ensino e discipulado; realizaria também muitos outros milagres e sinais até que seus seguidores se dessem conta da Sua plena divindade; de que eram pessoas salvas e cidadãos do Reino, e da missão para a qual foram escolhidos e chamados como discípulos.