Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 14
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1 E aconteceu que, entrando ele na casa de um dos principais fariseus para comer pão no dia do shabat, eles o estavam observando. Lc 14:1
Os evangelhos registram sete milagres realizados por Jesus em dias de sábado, sendo que cinco deles aparecem em Lucas e os outros dois são narrados por João (Jo 5.10; 9.14). Todas as refeições que os judeus fariseus comiam no sábado eram preparadas no dia anterior conforme as normas da Lei por eles interpretadas.
2 E eis que estava ali diante dele um certo homem hidrópico. Lc 14:2
Lucas chama a doença que o homem apresentava pelo nome médico em grego hidropisia, que se refere ao acúmulo de líquidos e fluidos; afetava outras partes do corpo e provocava inchaço generalizado.
3 E Jesus, respondendo, falou aos juristas e aos fariseus, dizendo: É lícito curar no dia do shabat?
4 E eles calaram-se. E tomando-o, ele o curou e o deixou ir.
5 E perguntou-lhes, dizendo: Qual será de vós que, tendo um jumento ou boi que caindo em um poço, não o retira imediatamente no dia do shabat? Lc 14:5
Manuscritos antigos e fiéis, assim como a KJ de 1611 trazem a expressão “jumento” ao invés de “filho” como aparece em algumas versões. O Comitê de Tradução da KJ entende que essa variante combina melhor com a expressão “boi” que acompanha a frase, e com o contexto mais amplo do ensino de Jesus (Lc 13:10 -17). Em Dt 5.14 a Lei é determinada tanto para seres humanos quanto para os animais. A ação de Jesus não seria permitida pela lei rabínica dos mestres judaicos, mas sim conforme a Lei mosaica. A letra da Lei, para a pessoa legalista, nega o espírito da própria Lei (Rm 7.6), enquanto a autoridade do Espírito no coração produz a verdadeira justiça da Lei (Rm 8.4). Esse era o ponto de vista que Jesus queria ensinar aos líderes religiosos de sua época: a vida, o amor e a justiça são mais importantes do que milhares de regulamentos e decretos de lei.
6 E, novamente, eles não puderam lhe responder acerca dessas coisas.
7 E ele propôs aos convidados uma parábola, reparando como eles escolhiam os principais lugares, dizendo-lhes: Lc 14:7
Jesus já antevia as discussões insensatas por posições e poder na comunidade dos cristãos (Lc 22.24) e recomenda que o servo entregue esse assunto ao Pai e aguarde sua promoção em paz, serviço e humildade.
8 Quando tu fores convidado por algum homem para as bodas, não te assentes no primeiro lugar, para que não aconteça que esteja convidado um homem mais honrado do que tu,
9 e, vindo o que convidou a ti e a ele, te diga: Dá o lugar a este homem; e então com vergonha, tenhas de tomar um lugar inferior. Lc 14:9
Jesus não está falando apenas de boas maneiras, mas da vida espiritual, na qual a humildade é o primeiro requisito para a exaltação, especialmente no Juízo final.
10 Mas, quando fores convidado, vai e assenta- te no lugar inferior, para que, quando vier o que te convidou, ele possa te dizer: Amigo, sobe para cá. Então, terás honra diante dos que estiverem assentados contigo na mesa.
11 Porque, qualquer que se exaltar a si mesmo, será humilhado, e aquele que se humilhar a si mesmo, será exaltado. Lc 14:11
Deus não honrará os seus filhos segundo a prática mundana de exaltar aos que têm influência nesta vida, mas conforme o testemunho de Cristo que se doou completamente, revelando uma atitude de total abnegação (Fp 2.6 de acordo com Tg 2:2 -4).
12 E ele disse também ao que o havia convidado: Quando deres um jantar ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos, para que não aconteça que eles também te tornem a convidar, e te seja recompensado.
13 Mas, quando tu deres um banquete, chama os pobres, aleijados, mancos e cegos;
14 e tu serás abençoado; porque eles não podem te recompensar; pois tu serás recompensado na ressurreição dos justos. Lc 14:14
Todas as nossas intenções e ações têm sua recompensa. Por isso, o cristão sábio é aquele que age de maneira a agradar a Deus e obter sua aprovação na ressurreição dos justos. Há doutrinas que separam a ressurreição dos justos (1Co 15.23; 1Ts 4.16; Ap 20:4 -6) da ressurreição geral (1Co 15.12,21; Hb 6.2; Ap 20:11 -15). Todavia, todos serão ressuscitados (Dn 12.2; Jo 5.28,29; Atos 24.15). Os “justos” são os que forem justificados por Deus por causa do sacrifício expiatório de Jesus Cristo e que tiveram comprovado sua fé mediante as suas ações na terra (Mt 25:34 -40).
15 E, ao ouvir estas coisas, um dos que estavam assentados com ele à mesa, disse-lhe: Abençoado é o que comer pão no reino de Deus. Lc 14:15
Era comum aos estudiosos das Escrituras associarem o reino futuro de Deus a um grande banquete (Lc 13.29; Is 25.6; Mt 8.11; 25:1 -10; 26.29; ap 19.9). Jesus aproveita a manifestação deste homem para adverti-los, em forma de parábola, sobre o fato de que nem todos entrariam no Reino de Deus.
16 Então, ele lhe disse: Certo homem fez uma grande ceia e convidou a muitos.
17 E enviou seu servo, na hora da ceia, para dizer aos convidados: Vinde, pois todas as coisas estão preparadas.
18 E todos com um consentimento começaram a dar desculpas. O primeiro disse-lhe: Eu comprei um pedaço de terra, e preciso ir vê-lo; peço-te que me desculpe.
19 E outro disse: Eu comprei cinco juntas de bois, e vou examiná-las; peço-te que me desculpe.
20 E outro disse: Casei-me e, portanto, não posso ir. Lc 14:20
Os homens deram uma série de desculpas falsas, uma vez que ninguém compra terras e propriedades sem ver, ou bois de arado sem experimentá-los. Nem mesmo a rigidez das cerimônias matrimoniais dos antigos judeus privaria o jovem marido de levar sua esposa ao banquete e atender ao convite do seu senhor.
21 E, vindo aquele servo, anunciou essas coisas ao seu senhor. Então, o dono da casa, irritado, disse ao seu servo: Sai depressa pelas ruas e becos da cidade e traze aqui os pobres, e os aleijados, e os coxos, e os cegos.
22 E disse o servo: Senhor, está feito como tu ordenaste, e ainda há lugar.
23 E disse o senhor ao servo: Sai pelas estradas e sendas, e obriga-os a entrar, para que a minha casa possa estar cheia.
24 Porque eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia. Lc 14:24
A parábola do maravilhoso banquete (grande Ceia) nos ensina: Deus convida a humanidade para entrar em Seu Reino e cear com Ele e seus amigos. Obviamente não há desculpas para não aceitar tal honra, e qualquer recusa será entendida como uma afronta. O evangelho é ministrado de graça e tudo já está preparado para o grande evento. Os homens procuram eximir-se da responsabilidade de atender ao convite do Senhor, pois preferem cuidar de suas propriedades terrenas a fazer parte do Reino (Jo 3.3,5); preferem trabalhar, ganhar, comprar e vender seus bens temporais a receber o Reino eterno de graça (Ef 2.8,9); preferem seus relacionamentos no mundo, como o casamento, às bodas no céu. Assim que a Casa estiver com sua lotação preenchida, virá o fim dos séculos e a completa implantação do Reino de Deus (Rm 11.25).
25 E iam com ele grandes multidões; e, voltando- se, disse-lhes:
26 Se algum homem vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e esposa, e filhos, e irmãos, e irmãs sim, e também a sua própria vida, ele não pode ser meu discípulo. Lc 14:26
Jesus apreciava o uso das figuras de linguagem a fim de dar maior significado e amplitude aos seus ensinos. Aqui, ele se vale de uma hipérbole vívida (exagero) para revelar que o ser humano deve amar a Deus (Cristo) de forma mais completa e abnegada, que a si próprio e à sua família imediata (Mt 10.37). A expressão “aborrece” como aparece em algumas versões, tem o sentido de “amar menos...” e significa submeter tudo, de forma absoluta, inclusive a própria pessoa, a um compromisso total com Cristo (Lc 16.13).
27 E quem não carregar a sua cruz, e não vir após mim, não pode ser meu discípulo. Lc 14:27
A expressão grega original carregar a sua cruz aparece em algumas versões como tomar a sua cruz, mas tem o mesmo sentido de seguir o exemplo de Cristo, consagrar-se absolutamente a Deus, não exatamente numa rebelião política ou militar contra Roma, mas na causa do Reino, até o martírio. Em contraste com a vinda de Cristo para a salvação (Mt 11.28), devemos segui-lo em todos os momentos, dia após dia, como discípulos fiéis. O custo do discipulado é a nossa rendição total ao Espírito Santo em amor. Essa consagração deve ser maior e mais íntima do que todas as nossas afeições familiares (Lc 14.26), maior do que todas as nossas vontades pessoais de carreira e sucesso (Lc 14.27), e maior do que nossa estima ao dinheiro, bens e poder (Lc 14.33). Paulo compreendeu e pregava esse mistério (Fp 3.8).
28 Porque qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular o seu custo, para ver se tem o suficiente para acabá-la?
29 Para não acontecer que, depois de haver posto os alicerces, e não sendo capaz de acabá- la, todos os que a virem comecem a escarnecer dele,
30 dizendo: Este homem começou a edificar e não foi capaz de acabar. Lc 14:30
Jesus é bem claro em nos advertir quanto à importância de não aceitarmos o compromisso do discipulado sem pensar bem sobre seu alto custo e implicações eternas. Por isso não é correto pregarmos somente sobre as bênçãos de andarmos com Cristo; devemos igualmente explicar a todos sobre a grande responsabilidade assumida com Deus por meio dessa decisão pessoal. O perigo de uma decisão irresponsável e insincera é duplo: a zombaria pelo fracasso nesta vida, e a perda total na outra (Hb 2:1 -3).
31 Ou qual é o rei que, indo guerrear contra outro rei, não se assenta primeiro a se aconselhar se com dez mil é capaz de sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil?
32 Do contrário, estando o outro ainda longe, ele envia embaixadores e pede condições de paz.
33 Assim, pois, qualquer de vós que não renunciar a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo. Lc 14:33
Jesus usa mais duas parábolas para frisar o custo de viver como cidadão do Reino na terra, bem como o preço que será pago por todos aqueles que não aceitarem o convite do Senhor para o notável banquete. O ser humano sábio é como o rei consciencioso, que ao perceber o poder do Reino que se avizinha, não espera o confronto final, mas se rende e busca a paz.
34 Sal é bom; mas, se ele perder o sabor, com que se há de temperar?
35 Nem servirá para a terra, nem para esterco; mas homens lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. Lc 14:35
Cristo compara o crente morno, espiritual e moralmente irresponsável, que não reflete sobre a importância da sua decisão de seguir o Evangelho, com um tipo de sal que havia na Palestina no século I, o qual era tão impuro que perdia o pouco cloreto de sódio que abrigava. Não servia para fertilizar o solo, nem mesmo para decompor-se de modo útil em meio ao esterco (Ap 3.16).