Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 15
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1 Então, aproximaram-se dele todos os publicanos e pecadores para ouvi-lo.
2 E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este homem recebe pecadores, e come com eles. Lc 15:2
Os fariseus e os escribas (mestres da Lei) eram visceralmente contra os coletores de impostos (publicanos) e contra toda pessoa que não cumprisse rigorosamente as suas doutrinas e normas religiosas de comportamento. Referiam-se a essas pessoas como “pecadores” (pessoas de má reputação). Cristo não apenas recebe o “pecador” como oferece a ele a Salvação (representada na partilha do pão). É importante lembrar que Jesus jamais participou do pecado, mas sempre amou aos pecadores e para libertá-los das garras do pecado foi que Ele veio e entregou sua vida (Lc 3.12, vs. 4,8; Mc 2.15; Atos 11.3; 1Co 5.11; Gl 2.12).
3 E ele lhes falou esta parábola, dizendo: Lc 15:3
Jesus responde ao questionamento dos legalistas com histórias de fundo teológico, filosófico e moral que contrapunham o amor longânime de Deus ao exclusivismo dos fariseus, escribas e líderes religiosos. As três parábolas que se seguem: a do pastor que busca; a da mulher que sofre com a perda; e do pai que jamais deixa de amar e perdoa, ensinam o significado do arrependimento (Lc 12.54). A volta dos que se extraviaram produz um enorme regozijo no coração de Deus.
4 Qual de vós é o homem que, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai atrás da perdida até encontrá-la? Lc 15:4
Referências ao pastor e o pastoreio eram comuns durante toda a história do povo judeu. Grandes líderes nacionais e profetas apreciavam esse tema (Sl 23; Is 40.11; Ez 34:11 -16). Algumas versões trazem a expressão “deserto”, todavia não tem a ver com dunas de areia, mas com campos de pasto não cultivados (Jo 6.10). Jesus nos exorta, como cristãos, a “ir em busca” dos perdidos – como maior estratégia de evangelização – e não simplesmente adotarmos uma postura insensível, crítica e punitiva (Lc 14.21,23). Deus em Cristo é nosso maior exemplo de evangelista. Seu amor e persistência em procurar salvar a humanidade ultrapassam a gravidade do pecado humano e a sua própria soberania intocável (Ez 34.6,11 em relação a Gn 3.9,10).
5 E, tendo-a encontrado, regozijando-se, a põe sobre seus ombros.
6 E ele chegando em casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque eu encontrei a minha ovelha que estava perdida.
7 Eu vos digo, que assim haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove pessoas justas que não necessitam de arrependimento. Lc 15:7
Jesus, em algumas ocasiões, valia-se da ironia para destacar o pecado e completa miopia espiritual daqueles que deveriam ser homens de Deus perante seu povo. Os que se consideram justos não sentem a necessidade de se arrepender dos seus pequenos delitos, e acabam pecando por sua arrogância, orgulho e insensibilidade.
8 Ou qual mulher que, tendo dez peças de prata, e perdendo uma peça, não acende a candeia e varre a casa, buscando com diligência até encontrá-la?
9 E, tendo-a encontrado, ela chama as amigas e as vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a peça que eu havia perdido.
10 Assim eu vos digo que há alegria na presença dos anjos de Deus por um só pecador que se arrepende. Lc 15:10
Lucas faz referência a uma moeda grega (dracma) e não romana (denário). O valor monetário dessas moedas era próximo e equivalia a um dia de trabalho (Mt 20.2). As casas da Palestina, na época de Jesus, não tinham janelas, e o chão era de barro, o que tornava ainda mais difícil a localização de uma pequena moeda.
11 E ele disse: Certo homem tinha dois filhos;
12 e o mais jovem deles disse ao seu pai: Pai, dá-me a parte dos bens que caiu para mim. E ele dividiu-lhes os seus haveres. Lc 15:12
Um pai judeu podia dividir sua herança entre os filhos quando desejasse (garantindo ao filho mais velho o dobro de todos os bens da família, conforme Dt 21.17 e outros textos da Torá), retendo para si, entretanto, as respectivas rendas que obtinha com a propriedade, até sua morte. Contudo, era extremamente incomum dar ao filho mais novo a sua porção na herança mediante qualquer solicitação. Jesus mostra filosoficamente que foi a humanidade, representada pela nação judaica, que insistiu para deixar a companhia de Deus, retirando-se para regiões distantes, áridas e sombrias.
13 E poucos dias depois, o filho mais jovem, ajuntando tudo, partiu para uma terra distante, e ali desperdiçou os seus bens com uma vida depravada.
14 E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Lc 15:14
A intenção do filho de abandonar suas terras onde vivia com a família e sob os cuidados do seu pai, para viver em completa liberdade, sem precisar prestar contas de seus atos, numa região distante, junto a um povo com outros costumes e cultura, fica bem clara quando ele parte levando consigo tudo o que possuía, sem deixar para trás absolutamente nada à espera de um possível retorno. Queria ficar livre das orientações e restrições impostas pelo pai, gastando conforme o seu bel prazer (hedonismo) sua parte das riquezas que a família havia conquistado, com trabalho árduo, ao longo de muito tempo de disciplina e força de vontade (Sl 107).
15 E ele foi e juntou-se a um dos cidadãos daquela terra, e ele o enviou aos seus campos para alimentar os porcos. Lc 15:15
A maior das vergonhas e dos castigos para um judeu era ter que se aproximar ou lidar com porcos, pois desde a antiguidade judaica esses animais representavam a impureza, a imundícia e o afastamento total de Deus (Lv 11.7).
16 E ele desejava encher a sua barriga com as cascas que os porcos comiam; e nenhum homem lhe dava nada.
17 E ele caindo em si, disse: Quantos servidores de meu pai têm pão suficiente e de sobra, e eu aqui pereço de fome! Lc 15:17
Os revezes, quedas, erros e toda sorte de insucessos representam grandes oportunidades para nos achegarmos ao Senhor, confessarmos amarguras, ressentimentos, fraquezas e pecados, e abraçarmos uma nova perspectiva de vida que não se limita a esta terra, nem a este tempo: é eterna. A Bíblia revela uma humanidade insensata afastando-se do seu Criador, desesperadamente necessitada de recobrar o bom senso (cair em si).
18 Levantar-me-ei, e irei para o meu pai, e lhe direi: Pai, eu pequei contra o céu e perante ti.
19 E não sou mais digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus servidores.
20 E ele, levantando-se, foi para seu pai. Mas, ele estando ainda longe do caminho, viu- o seu pai, e teve compaixão, e, correndo, lançou- se-lhe ao pescoço, e o beijou.
21 E o filho lhe disse: Pai, eu pequei contra o céu e à tua vista, e não sou mais digno de ser chamado teu filho.
22 Mas o pai disse aos seus servos: Trazei a melhor veste, e vesti-o, e ponde-lhe um anel em sua mão, e sapatos em seus pés; Lc 15:22
No contexto cultural da época e, em respeito ao significado dos termos originais do texto bíblico, cada um dos elementos do vestuário que o pai ordenou que fossem trazidos para seu filho maltrapilho (apenas um símbolo da sua condição espiritual), tinha um significado maior, que não pode ficar ausente do texto correspondente em língua portuguesa. A longa veste representava distinção, o anel de sinete era um símbolo de autoridade e tradição de família (Gn 41.42), e as sandálias demonstravam que ele era filho do senhor daquelas terras, uma vez que os escravos andavam descalços. Um novilho era engordado (cevado) por anos, na expectativa de ser abatido, assado e comido por todos, em uma ocasião memorável.
23 e trazei aqui um novilho cevado, e matai- o; e comamos e alegremo-nos;
24 porque este meu filho estava morto, e vive novamente; tinha-se perdido, e foi achado. E eles começaram a alegrar-se. Lc 15:24
Morto ou perdido é o estado de uma pessoa que perdeu o contato com Deus (Rm 6.13; Ef 2.1) e, por isso, não participa mais da vida de ressurreição e completo resgate em Cristo (Jo 11.25).
25 Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e vindo, ao aproximar-se da casa, ele ouviu a música e as danças.
26 E ele chamou um dos servos, e perguntou o que significavam aquelas coisas.
27 E ele lhe disse: O teu irmão chegou; e teu pai matou o novilho cevado, porque ele o recebeu são e salvo.
28 E ele se irritou e não queria entrar; portanto, saindo o pai, lhe rogava. Lc 15:28
O amor misericordioso e perdoador do pai simboliza a divina misericórdia de Deus, e o ressentimento punitivo do irmão mais velho assemelha-se à atitude legalista dos fariseus e líderes religiosos que se opunham aos pecadores, gentios e, muito especialmente, a Jesus.
29 E, ele respondendo, disse ao seu pai: Eis que eu te sirvo há tantos anos, e em nenhum momento eu transgredi um mandamento teu; contudo, tu nunca me deste um cabrito, para que eu pudesse me alegrar com os meus amigos;
30 mas, vindo este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as prostitutas, mataste- lhe o novilho cevado. Lc 15:30
O irmão mais velho havia obedecido a seu pai por medo e mera obrigação ritual. Entretanto, colecionava cada amargura em silêncio. O cabrito era considerado um alimento inferior, bem menos caro do que um novilho gordo. O preconceito e o ódio do irmão mais velho não permitiram que ele reconhecesse em seu irmão mais novo o mesmo sangue de família, e, portanto, pudesse também comemorar a sua salvação (livramento, cura).
31 E, ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que eu tenho é teu. Lc 15:31
O mesmo ocorre com muitos filhos de Deus; tudo está ao nosso dispor – todas as riquezas do Pai – em Cristo (Ef 1.3). A inveja e a arrogância, contudo, impedem o seu amplo e completo usufruto.
32 Mas era necessário fazer festa e regozijarmo- nos; porque este teu irmão estava morto, e vive novamente; tinha-se perdido, e foi achado.