Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Luk 16
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1 E ele dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de estar desperdiçando os seus bens. Lc 16:1
Esta parábola tem forte ligação com a anterior. Aqui, um mordomo ou gerente de patrimônio é denunciado como esbanjador (pródigo, defraudador, dissipador) dos bens do dono das terras e propriedades sobre as quais tinha o dever de bem administrar e gerar lucros.
2 E ele, chamando-o, disse-lhe: O que é isso que eu ouço de ti? Entrega a conta da tua mordomia, porque já não podes mais ser meu mordomo.
3 Então, o mordomo disse consigo: O que eu farei? Pois o meu senhor me tira a mordomia. Cavar eu não posso, de mendigar tenho vergonha.
4 Eu resolvi o que fazer, quando me tirarem a mordomia, eles possam me receber em suas casas. Lc 16:4
Uma antiga prática comercial judaica era aumentar excessivamente os preços, no caso de pagamentos a longo prazo. Isso para evitar a cobrança de juros, o que não era permitido pela Torá, especialmente entre os judeus (Dt 23.19). Muitos estudiosos defendem a tese de que o administrador procurou os devedores do seu patrão e, renegociando as dívidas com base em valores justos, para pagamento à vista, conseguiu receber um alto volume de recursos financeiros, agradando e conquistando assim o bom favor dos seus devedores, bem como satisfazendo os interesses do seu senhor.
5 Assim, ele chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto tu deves ao meu senhor?
6 E ele disse: Cem medidas de azeite. E disse- lhe: Toma a tua conta e assenta-te rapidamente, e escreve cinquenta. Lc 16:6
Cem potes de azeite, ou como aparece em algumas versões: “cem cados de azeite”, correspondem à produção de aproximadamente 450 oliveiras. Cerca de 400 litros de azeite puro. Normalmente os administradores colocavam um preço ainda mais alto no azeite, pois no caso de apropriação, por falta de pagamento, era costume adulterar o azeite com outros óleos para aumentar o volume devolvido.
7 Então, ele disse a outro: E tu, quanto deves? E ele disse: Cem medidas de trigo. E disse- lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta. Lc 16:7
Cem tonéis de trigo, ou como aparece em algumas versões: “cem coros de trigo”, correspondem à produção de aproximadamente 100 acres de terra plantada. Cerca de 36.000 quilos de trigo colhido.
8 E o senhor elogiou o mordomo injusto, porque ele agiu com sabedoria. Porque os filhos deste mundo são mais sábios na sua geração do que os filhos da luz. Lc 16:8
O que Jesus elogia não é, evidentemente, a desonestidade do administrador, mas sim a sua engenhosidade em usar os problemas e as oportunidades que estavam presentes para se preparar para um futuro inóspito que ele antevia. Da mesma forma, o cristão deveria investir todos os recursos que possui nesta vida no serviço de Deus e do Evangelho, em benefício dos seus semelhantes, a fim de assegurar galardões e grandes recompensas no céu e na vida eterna. A expressão “filhos deste mundo” (no original grego transliterado: tou aionos toutou) era uma frase comum para indicar o período anterior à vinda do Messias e o Seu Reino. Os cristãos fiéis, “os filhos da luz”, devem dar mais valor e atenção à eternidade (Jo 8.12; 12.36; Ef 5.8).
9 E eu vos digo: Fazei para si amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando falharem, eles vos recebam nas habitações eternas. Lc 16:9
O vocábulo grego original transliterado: adika, traduzido aqui, por algumas versões, como iníqua não indica uma falta de justiça ou ética pessoal; mas, a característica geral desta era, portanto, “deste mundo” (sociedade) em que vivemos (Lc 16.11; 1Jo 5.19). O povo de Deus deve estar disponível e motivado para usar todos os recursos que o próprio Senhor lhe tem concedido, na gloriosa tarefa de ajudar o próximo, e fazer discípulos de Cristo por meio da amizade sincera. A obra de amor ao próximo deve ser realizada com fidelidade, quer seja com poucos ou com muitos recursos. Esses amigos, discípulos de Cristo, estarão no céu (nos tabernáculos ou moradas eternas) e serão eternamente gratos por nossas atitudes de amor cristão. Dessa forma, as riquezas acumuladas neste mundo podem ser investidas para conquistar benefícios eternos.
10 Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito. Lc 16:10
A lealdade e a fidelidade não são determinadas pelo montante confiado, mas pelo caráter da pessoa que faz uso dele (Lc 19.17; Mt 25.21).
11 Pois, se não tiverdes sido fiéis com as riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras riquezas?
12 E se não fostes fiéis naquilo que é de outrem, quem vos dará o que é vosso? Lc 16:12
Nessa vida nada nos pertence, somos apenas administradores (mordomos) dos bens do Senhor. No céu, entretanto, receberemos nossa herança e o direito de possuí-la (Sl 24.1).
13 Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. Lc 16:13
A palavra grega original para “servir” é douleuen, que significa “ser escravo” (Rm 1.1). Nem sempre a escravidão era cruel ou jugo involuntário. Havia muitos senhores sábios e justos para com seus escravos, bem como algumas pessoas que se voluntariavam para servir com absoluta dedicação a certos senhores em troca de proteção e segurança. A expressão grega: mamõna, é uma palavra de origem aramaica que significa tudo o que pode ser adquirido por meio das riquezas. Lucas, mais que qualquer outro evangelista, destaca os “santos pobres” e o perigo do amor a Mâmon: o deus do dinheiro. Uma pessoa pode dedicar-se de todo o coração ao serviço de um ou outro, mas não de ambos (Cl 3.5; Mt 6.24 conforme Tg 4.4).
14 E também os fariseus, que eram ambiciosos, ouviam todas essas coisas; e zombavam dele.
15 E ele disse-lhes: Vós sois os que justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; porque o que entre os homens é elevado perante Deus é abominação. Lc 16:15
Os fariseus apreciavam receber o louvor e os elogios das pessoas, especialmente por causa de sua cultura, aparente rigidez religiosa e oratória (Jo 5.44; 12.43), mas Deus, que sonda os corações e o íntimo de cada ser humano, vê os motivos egoístas que são abomináveis para Ele.
16 A lei e os profetas duraram até João; desde este tempo o reino de Deus é pregado, e todo homem esforça para entrar nele.
17 E é mais fácil passar o céu e a terra, do que faltar um traço da lei. Lc 16:17
A vida e o ministério de João Batista, que preparou o caminho para Jesus, o Messias, marcou a linha divisória entre o AT (a Lei e os Profetas) e o NT (o Evangelho da Nova Aliança – Hb 8:6 -12 conforme Jr 31:31 -34). No Evangelho, a salvação é dada inteiramente pela graça, de modo que, mesmo não sendo judeus “zelosos da Lei”, como os fariseus, muitos estão – a cada dia – entrando no Reino de Deus seguindo o difícil, estreito e desprezado Caminho de Cristo (Lc 14.27). É a vida e o ministério de Cristo que trazem uma nova e derradeira oportunidade de salvação à humanidade caída (Nova Aliança). Cumprindo assim, nos menores detalhes, toda a Lei (Antiga Aliança). Jesus ilustra o completo cumprimento da Lei e suas profecias, assegurando que nem um pequeno traço gráfico (algumas versões o chamam impropriamente de “til” ao tentar uma correspondência com a língua portuguesa) da menor letra do alfabeto hebraico se apagaria da Lei até que fosse cumprido (Mt 5:17 -18).
18 Todo aquele que repudia sua mulher e casa com outra comete adultério; e quem casar com a repudiada por seu marido comete adultério. Lc 16:18
Jesus toca sabiamente em um assunto delicado já naquela época. Os fariseus, apesar de todo o seu zelo e legalismo, haviam se tornado extremamente permissivos em relação ao divórcio. Alguns mestres judaicos como Hillel concediam divórcio pelos motivos mais triviais; por exemplo, se uma esposa deixasse queimar ou azedar o almoço do marido. Aquibá, outro jurista fariseu, chegou ao ponto de permitir o divórcio a maridos que se queixaram da beleza de suas esposas e desejavam casar com outra mais bonita. Além disso, apenas aos homens era dado o direito do divórcio. As mulheres eram obrigadas a permanecer casadas enquanto os maridos as desejassem. Jesus notou que os fariseus haviam transformado a Lei numa zombaria e, por isso, fazia questão de expor os juristas e religiosos da época ao ridículo de suas práticas injustas. Jesus ensinou que o alvo maior da Lei não é o divórcio, mas sim orientar o casal para que se ame, respeite e viva em harmonia e companheirismo por toda a vida terrena. Deus criou o casamento de modo que dois seres humanos se tornem um e dêem seqüência à raça humana como uma grande família (Gn 2.24). O divórcio nada mais é do que uma disposição por causa do egoísmo, insensibilidade e arrogância – “dureza de coração” – a que chegaram os homens (Mc 10.5). Descasar e casar de novo é uma alteração (adultério, deformação) da vontade original de Deus para o homem e a mulher; assim como os fariseus estavam fazendo com toda a Lei. De passagem, Jesus estava defendendo publicamente a posição de João a respeito do procedimento de Herodes Antipas para se unir a Herodias (Mt 14:1 -4). Mateus revela mais sobre o ensino de Jesus em relação ao divórcio (Mt 5.31,32; 19.9), tema que também aparece em outros textos bíblicos (Mc 10.11,12; 1Co 7.10,11).
19 Havia um certo homem rico, que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, alegrando- se diariamente no seu luxo.
20 e havia um certo mendigo, chamado Lázaro, que foi colocado em seu portão, cheio de feridas. Lc 16:20
Jesus conta uma outra história. Desta feita um homem rico e avarento vivia de forma perdulária. Insensível, não atentava para as necessidades de Lázaro, um mendigo cujo nome em hebraico significa: “Deus me socorreu”, e que fora deixado na entrada da mansão do homem rico. A palavra grega transliterada: esbebleto significa literalmente, “foi jogado”. Lucas, como médico, nos informa sobre a extensão e a gravidade das feridas do pobre Lázaro, usando uma expressão médica, muito específica em grego, e que só aparece aqui no NT “chagas”.
21 E desejava ser alimentado com as migalhas que caíam da mesa do rico; além disso cães vinham lamber-lhe as feridas.
22 E aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e o homem rico também morreu e foi sepultado. Lc 16:22
O Talmude menciona tanto o paraíso (Lc 23.43) quanto o lado de Abraão (tradicional e literalmente chamado de “seio de Abraão”), como sendo o lar eterno dos justos. Estar junto a Abraão significa estar em um lugar de paz e felicidade (o verdadeiro Shabbãth – repouso), para onde vão todos os justos após a morte e ficam aguardando o Dia do Senhor, a vindicação futura e final. O rico avarento demonstra todas as características de um saduceu da época: riquezas, amor excessivo ao luxo, dinheiro e bens materiais. Também não acreditavam na vida após a morte (Atos 23.8), e limitavam o cânon bíblico aos livros de Moisés (a Torá). Em contraste com o “administrador astuto” e sua preocupação quanto ao seu futuro (Lc 16:4 -9), este rico, como o “tolo” (Lc 12.16), foi indiferente à sua própria condição e ao sofrimento dos seus semelhantes no presente, e não se preocupou com o juízo futuro. Sua atitude quanto à vida ilustra bem o princípio revelado em Lc 16.15b.
23 E, no inferno, ele ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio.
24 E, ele gritando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e envia a Lázaro para que ele possa molhar a ponta de seu dedo na água e refrescar a minha língua, porque eu estou atormentado nesta chama. Lc 16:24
Algumas versões trazem aqui a palavra “inferno”. Entretanto, Hades não é geena, como em Mt 5.22. Hades ou Sheol (em hebraico), refere-se ao lugar para onde vão todas as almas após a morte física. O Hades é dividido em duas áreas: o paraíso e o lugar de tormento, onde os ímpios esperam pelo Juízo final para a condenação (Ef 4.9; Ap 20:11 -15). Que os tormentos começam no Hades fica evidenciado pela lastimável situação desse rico avarento. O Hades inclui os castigos característicos do fogo do inferno (lago de fogo e enxofre, Ap 20.10; agonia extrema, Ap 14.11; separação total e definitiva, Mt 8.12). O paraíso (seio de Abraão – 22; 13.28) está separado por um abismo instransponível entre o mundo inferior e os “lugares celestiais” (2Co 12.4; Ap 2.7; 6.9). Nesta história o Senhor ensinou que existe plena consciência após a morte. A memória do passado não é anulada no outro mundo. O inferno é um lugar de sofrimento eterno. Não existe uma segunda chance de salvação após a morte. É impossível qualquer comunicação entre mortos e vivos. Todavia, há alguns teólogos que entendem de modo menos literal essa descrição feita por Jesus sobre estar “no seio de Abraão” ou no Hades.
25 Mas Abraão disse: Filho, lembra-te de que em tua vida recebeste os teus bens, e Lázaro de igual modo as coisas ruins, mas agora ele é confortado e tu atormentado. Lc 16:25
Os dois homens desejaram muito algumas coisas. O rico avarento desejou e amou suas riquezas e o glamour do luxo e do poder, e recebeu tudo do que mais queria. Durante toda a sua vida perdulária, muitas vezes passou ao lado do mendigo, mas jamais sentiu compaixão pelo seu semelhante atirado a uma situação tão degradante, sem forças nem qualquer auxílio. Lázaro sonhava com uma oportunidade de vida digna, a cura física e qualquer alimento ou ajuda que viesse daquele seu semelhante tão próximo e tão rico. Esperou até a morte pela realização dos seus sonhos, mas morreu em silenciosa esperança, resignado. Aceitou a vontade de Deus até o fim. Entretanto, a vida não acaba na sepultura, e na eternidade, a situação desses dois seres humanos sofreu grande inversão. O rico avarento, que jamais precisara pedir coisa alguma, agora experimenta o que significa mendigar, e suplica algumas gotas de água a Abraão (a quem chama de Pai, mas em nome de quem nunca agiu como filho) usando palavras semelhantes às que Lázaro usara para lhe implorar algumas migalhas de pão. Mesmo assim, considerava que Lázaro poderia servi-lo. O inferno é um lugar de padecimento constante e eterno, de onde pode ser contemplado o que jamais se alcançará (Lc 16.23), e de onde os condenados se lembrarão do passado com saudade insaciável e terrível remorso (Lc 16.25), como uma espécie de sede sem alívio (Lc 16.24).
26 E, além destas coisas, está posto um grande abismo entre nós e vós; de modo que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá, passar para cá.
27 Então, ele disse: Eu suplico, pois, ó pai, que tu o envies à casa de meu pai;
28 porque eu tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, para que eles não venham também para este lugar de tormento.
29 Disse-lhe Abraão: Eles têm Moisés e os profetas, que os ouçam. Lc 16:29
Referir-se a “Moisés e os Profetas” era um meio comum de mencionar todo o AT. O rico avarento não prestara atenção às Escrituras e aos seus ensinamentos, e agora temia que seus irmãos caíssem no mesmo erro.
30 E ele disse: Não, pai Abraão; mas, se algum dos mortos fosse até eles, eles se arrependeriam.
31 E ele disse-lhe: Se eles não ouvem a Moisés e aos profetas, também não serão convencidos, mesmo se alguém ressuscitar dos mortos. Lc 16:31
Lucas mostra que essa história não trata apenas do cuidado que devemos ter com nossos desejos, ambições e atitudes durante esta vida. No final Jesus menciona sua ressurreição (Lc 16.31; 9.22) para fazer uma importante revelação: se a mente e o coração de uma pessoa estiverem refratários ao Espírito do Senhor, e as Escrituras Sagradas forem rejeitadas, nenhum tipo de prova – nem mesmo uma ressurreição – fará essa pessoa mudar de opinião (Jo 5:45 -47). Nem a ressurreição de Lázaro, amigo de Jesus, em Betânia, nem mesmo a de Cristo foram capazes de persuadir os arrogantes e legalistas líderes religiosos a se arrependerem (Jo 11.47 – 12.11), mas no coração de muitas outras pessoas houve fé, e foram salvas.