Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Act 28
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1 E eles tendo escapado, souberam que a ilha se chamava Malta. Atos 28:1
Malta era conhecida pelos gregos e romanos por Melita. Pertencia à província romana na Sicília e ficava a cerca de 100 Km, ao sul dessa grande ilha.
2 E o povo bárbaro usaram conosco de não pouca gentileza; porque, acendendo um fogo, recebeu a todos nós, por causa da chuva que caía, e por causa do frio. Atos 28:2
Literalmente, os povos da ilha são chamados pelo autor da narrativa de “bárbaros”, como aparece em versões antigas. Entretanto, não tinha um sentido discriminatório, era apenas um costume grego denominar assim todos os povos que não falavam a língua grega. Eles não eram povos primitivos e selvagens como a expressão em português pode dar a entender. Eram descendentes dos fenícios. Um dos povos mais hábeis na navegação e construção de embarcações, mas que – assim como os gregos e judeus – haviam sido dominados pelo império romano. As chuvas e o frio eram incessantes no final do mês de outubro e início de novembro.
3 E, tendo Paulo ajuntado um maço de gravetos e pondo-os no fogo, uma víbora, fugindo do calor, prendeu-se na sua mão.
4 E os bárbaros, vendo-lhe a víbora venenosa pendurada na mão, diziam uns aos outros: Sem dúvida este homem é assassino, porque, apesar de ter escapado do mar, a vingança não o deixa viver. Atos 28:4
Justiça era o nome de uma deusa grega que personificava toda a justiça divina. Na mitologia grega seu nome era Dike.
5 E tendo ele, sacudido o animal no fogo, não sentiu mal algum.
6 Mas eles aguardavam que inchasse, ou que repentinamente caísse morto. Mas depois de esperar por muito tempo, e vendo que nenhum mal lhe sobrevinha, mudando de opinião, diziam que ele era um deus. Atos 28:6
Os habitantes da ilha sabiam que a mordida daquela cobra peçonhenta produzia morte quase instantânea. Lucas usa novamente um termo médico (inchaço), o qual só tem registro no NT, para descrever a possível reação inflamatória prognosticada pelo povo. Entretanto, mais uma vez, a Palavra do Senhor se cumpre fielmente (Lc 10.19) e nenhum mal sobreveio a Paulo. Os pagãos, especialmente na antigüidade, tinham o hábito de atribuir divindade aos homens com muita facilidade, muito diferente do rigor teológico dos judeus. Os habitantes de Listra já haviam tentado endeusar Paulo e Barnabé (Atos 14:11 -18).
7 E ali, próximo daquele mesmo lugar, havia uma possessão do principal homem da ilha, cujo nome era Públio, o qual nos recebeu e hospedou cortesmente por três dias. Atos 28:7
Públio era um prenome romano (não sobrenome) e a maneira natural de como os habitantes da ilha tratavam o seu soberano. Lucas usou uma expressão rara, mas exata, para descrever o grau de autoridade máxima de Públio perante seu povo na ilha. A arqueologia confirmou, séculos mais tarde, que o título oficial do governador supremo de Malta era mesmo “Homem Principal”.
8 E aconteceu do pai de Públio estar doente de febre e fluxo sangrento, e entrando Paulo a vê-lo, depois de orar, pôs suas mãos sobre ele e o curou.
9 Então, sendo feito isto, também outros enfermos da ilha vieram e foram curados,
10 os quais também nos honraram com muitas atenções, e quando estávamos para partir, nos proveram das coisas que eram necessárias.
11 E após três meses partimos em um navio de Alexandria, que invernara na ilha, cuja inscrição era Castor e Pólux. Atos 28:11
Devido ao inverno e às tempestades, tiveram que permanecer em Malta até o início da estação das navegações, o que ocorria no final do mês de fevereiro e início de março. Cástor e Pólux eram chamados de “filhos de Zeus (deus)”, em grego Dioscuroi, divindades que, segundo a crença pagã, protegiam os marinheiros contra as revoltas do mar e dos ventos.
12 E, chegando a Siracusa, permanecemos ali por três dias, Atos 28:12
Siracusa era a principal cidade siciliana, situava-se na costa oriental da ilha e mantinha um importante porto.
13 De lá nós buscamos uma bússola, e chegamos a Régio. E um dia depois, soprando um vento do sul, chegamos no segundo dia a Potéoli, Atos 28:13
Régio era um porto que ficava na cidade de mesmo nome, no litoral da Itália, próximo à extremidade sudoeste e junto ao estreito que separa esse país da Sicília, defronte Messina. Potéoli é chamada atualmente de Puzzuoli, e fica cerca de 320 Km de Régio. Estava localizada na parte norte da baía de Nápoles, e era considerado o principal porto de Roma, ainda que dela distasse cerca de 120 Km. Sua população era cosmopolita e incluía romanos, judeus, árabes e cristãos.
14 onde encontramos irmãos que nos suplicaram a permanecer por sete dias com eles. E assim partimos para Roma. Atos 28:14
Assim como em Trôade (Atos 20.6) e em Tiro (Atos 21.4), Paulo consegue passar com eles um ou dois fins de semana a fim de celebrar a Ceia do Senhor, e pregar a Palavra. O centurião certamente consentiu com esse pedido de Paulo.
15 E lá os irmãos, tendo ouvido sobre nós, vieram a nos encontrar no foro de Ápio e as Três Tabernas, e Paulo, vendo-os, agradeceu a Deus e tomou coragem. Atos 28:15
Paulo escreveu sua carta à Igreja em Roma (livro canônico que se segue) cerca de três anos antes. Conhecidos e crentes discipulados por Paulo também chegaram à cidade antes dele (Rm 16). A Praça de Ápio era uma pequena cidade localizada cerca de 70 Km ao sul de Roma, e muito conhecida por sua falta de temor a Deus e impiedade. Três Vendas (ou Três Lojas), era outra pequena cidade, mas dada ao comércio, e ficava a uns 55 Km de Roma. Outros cristãos foram encontrar-se com Paulo ali.
16 E, quando chegamos a Roma, o centurião entregou os prisioneiros ao capitão da guarda; mas permitiu-se a Paulo morar sozinho, com o soldado que o guardava. Atos 28:16
Lucas foi dirigido por Deus para revelar ao mundo, de todas as épocas, o avanço do Evangelho, desde Jerusalém até os confins da terra, como havia prometido o Senhor Jesus (Atos 1.8). Roma foi o ponto de chegada, uma vez que era a sede do mundo na época e cidade onde viviam os representantes de muitas nacionalidades e raças de então. O Evangelho enfim chegara aos confins. E seguiria adiante, a partir da cidade de Roma. Como Paulo não havia cometido nenhum crime flagrante, a lei romana lhe permitiu aguardar seu julgamento em liberdade vigiada, podendo alugar uma casa, mas ficando sob a custódia de um soldado, que muitas vezes passava o dia acorrentado a ele (Ef 6.20; Fp 1:13 -17; Cl 4:3 -18; Fm 10-13).
17 E aconteceu que, após três dias, Paulo convocou os principais judeus. Tendo-se reunido, disse-lhes: Homens e irmãos, embora eu não tenha feito nada contra o povo, nem aos costumes dos nossos pais, eu fui entregue como prisioneiro em Jerusalém nas mãos dos romanos. Atos 28:17
O decreto do imperador Cláudio (Atos 18.2) já tinha perdido o valor, e os líderes judeus haviam retornado a Roma. Paulo inicia seu discurso enfatizando sua consideração pelos irmãos de sangue (ainda que também fosse cidadão romano). A mesma expressão que usava para com os “irmãos cristãos” estabelecidos pelo sangue vicário de Cristo (Rm 9.3). Paulo ainda buscava tenazmente levar a Salvação até os judeus.
18 Os quais, tendo-me interrogado, queriam deixar-me ir, por não haver em mim nenhuma causa de morte.
19 Mas quando os judeus se opuseram contra isso, eu fui forçado a apelar para César, não que tivesse algo de que acusar a minha nação. Atos 28:19
Paulo deixa bem claro que não apelou para César com o objetivo de denunciar ou acusar os dirigentes da nação de Israel.
20 Por esta causa, portanto, vos chamei para vos ver e falar; porque pela esperança de Israel estou preso com esta corrente.
21 E disseram-lhe: Nós não recebemos cartas da Judeia acerca de ti, nem veio aqui algum dos irmãos anunciando ou falando algo mau de ti.
22 Mas nós desejamos ouvir o que tu pensas; porque, quanto a esta seita, sabemos que em toda parte se fala contra ela. Atos 28:22
A palavra grega original para “seita” é hairesis e tem o sentido de “heresia”. No caso, doutrina contrária ao que foi estabelecido pela liderança espiritual e teológica dos judeus. Os judeus de Roma estavam bem informados sobre as controvérsias em torno de Jesus ser ou não o Messias prometido. Entretanto, queriam ouvir do próprio Paulo, que como sempre, estava bem disposto a dar todas as explicações sobre o assunto. Paulo sabia que, mais cedo ou mais tarde, os líderes dos judeus em Jerusalém voltariam ao ataque, e ele queria aproveitar o tempo “livre” para evangelizar o maior número possível de judeus.
23 E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele em seu alojamento, aos quais explicava testemunhava o reino de Deus persuadindo-os a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até a noite. Atos 28:23
A expressão “Lei de Moisés e os Profetas” significa passar por todo o AT reconhecido pelos mais prestigiosos e antigos judeus como “livros canônicos” (inspirados por Deus) e, portanto, dignos de toda a confiança (Lc 24:27 -44). Paulo emprega todo seu esforço e fé para corrigir um grave erro de interpretação da época. Os judeus sempre esperaram por um Messias “conquistador militar”, à semelhança do rei Davi. Entretanto, por meio das profecias do AT, Paulo procura expor claramente o perfil e a missão do Messias, como “conquistador de almas”. Paulo apresentava Jesus Cristo como o Salvador dos judeus e de todo o mundo (gentios) e Senhor de um Reino que jamais terá fim.
24 E alguns criam nas coisas que foram faladas, mas outros não criam.
25 E, discordando uns com os outros, eles partiram, após Paulo falar uma palavra: Bem falou o Espírito Santo pelo profeta Isaías a nossos pais,
26 dizendo: Vai a este povo e dize: Ouvindo, ouvirão, mas não entenderão. E vendo, verão, mas não perceberão.
27 Porquanto o coração deste povo está endurecido, e os seus ouvidos ouvem com dificuldade, e fecharam os seus olhos, a fim de que não vejam com os seus olhos, e ouçam com os seus ouvidos, e entendam com o seu coração, e se convertam, e eu os cure. Atos 28:27
Esta citação de Is 6:9 -10, foi usada por Jesus contra os judeus incrédulos (Mt 13.13 e paralelos em Rm 11.8; Jo 12:39 -40). A rejeição de Cristo por parte do seu povo, Israel, confirma as profecias das Escrituras. Entretanto, cabe aos cristãos empregarem esforços missionários com vistas à evangelização de judeus e árabes, bem como de todos os povos até os confins da terra.
28 Seja, pois, de vosso conhecimento, que aos gentios é enviada a salvação de Deus, e que eles a ouvirão.
29 E, tendo ele dito estas palavras, os judeus partiram, tendo grande contenda entre si.
30 E Paulo permaneceu por dois anos inteiros na sua própria casa alugada, e recebia todos que lhe procuravam,
31 pregando o reino de Deus, e ensinando as coisas relacionadas ao Senhor Jesus Cristo, com toda a confiança, sem nenhum homem o proibia. Atos 28:31
A tradição da Igreja registra que Paulo chegou a ser solto desse encarceramento. Paulo escreveu a várias igrejas com a expectativa de ser liberto a qualquer momento (Fp 2.24; Fm 22). Muitos detalhes registrados nas cartas pastorais revelam que Paulo teve uma oportunidade de voltar à Ásia Menor, a Creta e à Grécia. A segunda epístola a Timóteo, por exemplo, fala de um ministério de Paulo não historiado no livro de Atos. E, por fim, alguns escritos tradicionais e respeitáveis da Igreja, como as cartas de Clemente (cerca de 95 d.C.) e o cânon Muratoriano (cerca de 170 d.C.), narram Paulo em plena atividade ministerial, na Espanha antes de sua morte pelas mãos de Nero (cerca de 67 d.C.). Paulo continua sendo um testemunho vivo para todos, nós cristãos sinceros (2Tm 4.7).