Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Mat 19
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1 E aconteceu que, tendo Jesus terminado esses discursos, ele partiu da Galileia, e foi para os confins da Judeia, além do Jordão;
2 E grandes multidões seguiram-no, e ele as curava ali. Mt 19:2
Jesus entrou na região da Peréia, em direção a Jerusalém, onde hoje se situa a Jordânia. Na época fazia parte das terras (tetrarquia) de Herodes Antipas, ficava a leste do rio Jordão, estendendo-se do mar da Galiléia até próximo ao mar Morto (Lc 13.22).
3 Os fariseus também vieram até ele, tentando- o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Mt 19:3
Mateus escreveu com o propósito de evangelizar os judeus, por isso, usa a expressão “Reino dos céus” significando “Reino de Deus”, respeitando o cuidado extremo que os judeus tinham ao pronunciar o nome de Deus. Assim também, Mateus adiciona a frase “por qualquer motivo” a esse versículo, que não consta do texto paralelo escrito por Marcos (Mc 10.2). Isso, para esclarecer ao leitor quanto ao ensino de duas escolas rabínicas: Hillel, que permitia ao marido repudiar (rejeitar, mandar embora, abandonar, divorciar), sua esposa por qualquer motivo que o desgostasse, até mesmo pelo sabor ou preparo de uma refeição. E a escola Shammai, a qual pregava que o único motivo suficiente para um homem divorciar-se de sua esposa era a infidelidade conjugal comprovada.
4 E ele, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido, que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez,
5 e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne?
6 Por isso, eles não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou, nenhum homem o separe. Mt 19:6
Mais uma vez os doutores da Lei procuram desmoralizar Jesus, pois o assunto estava dividido, há muitos anos, entre duas grandes e respeitadas correntes de pensamento. Mas Jesus apela, novamente, para o espírito da Lei e não apenas para a letra. Jesus leva sua audiência para o princípio da criação e para o pensamento originário de Deus – O Criador – e cita a Septuaginta (AT em grego), defendendo assim a doutrina da inspiração das Escrituras (Gn 1.27; 2:23 -24). Portanto, o propósito divino na criação é de que marido e esposa se unam de forma a se tornarem a mesma carne, sendo os corpos (o sangue) o meio para a unidade indissolúvel do parentesco e comunhão, fazendo, assim, do casamento, a mais profunda forma de unidade física e espiritual. Esse conceito vital deve ser ensinado às pessoas na época do namoro. Elas precisam aprender a namorar (se conhecer bem) segundo a vontade de Deus. Isso evitaria muitos problemas no casamento.
7 Disseram-lhe eles: Então, por que Moisés ordenou dar-lhe carta de divórcio, e para repudiá- la?
8 Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas esposas; mas não foi assim desde o princípio.
9 E eu vos digo, que quem repudiar sua esposa, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada comete adultério. Mt 19:9
A intenção dos fariseus não era compreender a verdade, mas achar um pretexto para destruir Jesus. Eles recorrem, assim, à lei de Moisés (Dt 24.1). Mas Jesus demonstra que certas concessões, na história, não foram feitas por serem o plano original de Deus para a humanidade, mas em atenção aos pedidos insistentes da sociedade; da alma dos homens, dos seus corações arrogantes, vaidosos e egoístas. Características que acompanharam o ser humano após a sua Queda e que se relacionam com a influência do Diabo na terra (Gn 3:8 -13; 22-24).
10 Disseram-lhe seus discípulos: Se tal é a causa do homem a respeito de sua esposa, não é bom casar.
11 Mas ele lhes disse: Nem todos os homens podem receber esta palavra, mas somente aqueles a quem é dado.
12 Porque há alguns eunucos que assim nasceram do ventre de sua mãe; e há alguns eunucos, a quem os homens fizeram eunucos, e há eunucos, que se fizeram eunucos por causa do reino do céu. Quem é capaz de receber isso, receba-o. Mt 19:12
A palavra “eunuco” (em hebraico sãrïs) é derivada de um termo assírio que significa “aquele que é cabeça” ou “o braço direito”. No NT, o vocábulo grego eunouchos, é uma derivação de eunen echõ, que pode significar “conservar o leito” ou “manter a padrão”. Nos escritos de Heródoto aprendemos que nos países orientais os eunucos eram contratados especialmente para tomar conta dos haréns dos monarcas, sendo, entretanto, reputados como dignos de confiança em todos os sentidos. Em todos os casos, a palavra refere-se a pessoas da mais alta confiança do rei e pode ser usada no sentido de: “oficial da corte” ou “castrado”. Em Atos 8.27 ambos os sentidos estão em foco. Aqui, porém, a expressão original é clara e refere-se ao homem castrado. O judaísmo conhecia apenas duas categorias de eunucos: Os “feitos pelo homem” (em hebraico sãrïs ’ãdhãm), e aqueles que nasceram congenitamente incapazes ou sem libido (instinto e desejos sexuais) chamados de “natural” ou “eunuco do sol” (em hebraico sãrïs hammâ). Jesus usou uma metáfora para mostrar o radicalismo do amor: na união com Deus e com o próximo, na aliança do matrimônio e no ministério cristão. Jesus surpreende seus inquiridores com uma terceira classe de eunucos: os celibatários, aqueles que, de forma livre e espontânea, sacrificaram seus desejos naturais e legítimos por amor ao Senhor e para melhor e maior dedicação ao Reino de Deus. Em nenhum momento Jesus defendeu o asceticismo (doutrina dos primeiros séculos que exigia dos líderes cristãos a total abstinência sexual e punia severamente os pensamentos impuros). Jesus e Paulo (dois celibatários) deixam claro que não é necessário que um homem ou uma mulher se privem do casamento para serem bons obreiros ou líderes espirituais da Igreja de Cristo, isso é dom de Deus; e, portanto, é graça e não maldição. Pessoas com esse dom devem ser orientadas a dedicar-se exclusivamente ao Senhor e à Igreja; caso contrário, Satanás poderá se aproveitar disso e tentar recrutá-las para servir ao reino do mal (1Co 7.7,8,26,32-35). Orígenes, um dos pais da Igreja do século II, interpretando erradamente essa palavra de Jesus, entendendo-a de forma literal, mutilou a si mesmo.
13 Foram, então, trazidas até ele criancinhas, para que sobre elas pusesse suas mãos, e orasse; mas os discípulos os repreenderam.
14 Jesus, porém, disse: Deixai as criancinhas e não as proíbas de virem a mim; porque de tais é o reino do céu.
15 E, tendo-lhes imposto suas mãos, partiu dali. Mt 19:15
Era costume dos judeus levar as crianças para serem abençoadas por um rabino que fosse mestre comprovado da Lei. Ao ouvirem o ensino de Jesus, as pessoas não tiveram dúvidas em enviar seus filhos para receberem a dádiva real (Gn 27). Entretanto, Jesus aproveitou o evento para pregar sobre a chegada e a disponibilidade do Reino de Deus para todos que o recebessem com a humildade, sinceridade, fé e alegria das crianças (Mt 6.9; Rm 8.14).
16 E, eis que vindo alguém, disse-lhe: Bom Mestre, que coisa boa devo eu fazer para ter vida eterna? Mt 19:16
Os judeus, no tempo de Cristo, criam que a realização de um grande e único ato digno podia garantir-lhes um lugar privilegiado no céu. Outros acreditavam que a completa e restrita observância da Lei os levaria ao Reino de Deus. Lucas revela que esse jovem ocupava posição de grande prestígio (Lc 18.18). Marcos salienta que, ao aproximar-se de Jesus, correu e ajoelhou-se (Mc 10.17). O jovem possuía tudo o que alguém pode desejar, mas lhe faltava a certeza da vida eterna. Entretanto, ele não pensou na incompatibilidade que existe entre o mundanismo e o Reino de Deus (Mt 6.33). A riqueza gera soberba e arrogância, provocando rejeição à simplicidade e humildade que existe na fé em Cristo. Após a Queda, o ser humano perdeu a capacidade de ser bom e fazer o bem (continuamente). Por isso, Deus fez da Salvação um presente (dádiva), não podemos adquiri-lo, só nos é possível aceitá-lo (Ef 2.8).
17 E ele disse: Por que tu me chamas bom? Não há nenhum bom senão um que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.
18 Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Tu não assassinarás, não cometerás adultério, não roubarás, não dirás falso testemunho,
19 honrarás ao teu pai e à tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
20 Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha juventude; o que me falta ainda?
21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai e vende o que tu tens, e dá-o aos pobres, e tu terás um tesouro no céu; e vem, e segue- me.
22 Mas o homem jovem, ouvindo essa palavra, foi embora triste, porque ele tinha muitas posses. Mt 19:22
Jesus mostra que o jovem em questão (assim como algumas pessoas) imaginava obedecer a todos os mandamentos da Lei: ele não matava, não roubava e não era um mau filho. Acontece que a própria Escritura garante que ninguém é capaz de cumprir a Lei e, por isso, precisamos desesperadamente da Graça do Senhor. O rapaz tinha tudo, e queria também ser perfeito (em grego teleios, aperfeiçoado, tendo alcançado a meta). Jesus, contudo, ao relacionar os mandamentos (Êx 20:12 -16; Dt 5:16 -20; Lv 19.18) omitiu “não cobiçarás”. Esse era, pois, justamente, o grande obstáculo para que o rapaz recebesse, de graça, a tão almejada vida eterna. Jesus não está ensinando que todo cristão deva ser pobre, muito menos que todo pobre vai para o céu. Ele estava provando o coração daquele homem para revelar a ele (e a nós) a necessidade de arrependimento e conversão dos pecados que, muitas vezes, pensamos que não temos.
23 Disse, então, Jesus aos seus discípulos: Na verdade eu vos digo que um rico dificilmente entrará no reino do céu.
24 E outra vez eu vos digo que é mais fácil um camelo passar por um olho de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. Mt 19:24
Jesus recorre a outra metáfora: o maior animal na Palestina em contraste com a menor passagem conhecida pelo povo na época: o buraco de uma agulha. A expressão também se refere, curiosamente, a uma pequena entrada, situada ao lado da porta principal da cidade de Jerusalém, por onde (por motivos de segurança) um camelo não podia passar carregado e, mesmo assim, somente conseguia atravessá-la de joelhos (Mc 10.25). A salvação não é possível pelo esforço humano. É um ato sobrenatural de Deus, que busca corações humanos onde receba amor incondicional e tenha prioridade absoluta. Ele acrescentará todas as demais coisas necessárias (Mt 6:33 -34). O amor ao dinheiro e às riquezas pode escravizar uma pessoa, exacerbando seu egoísmo e desviando-a do Reino (1Tm 6:9 -10). Jesus faz ainda uma alusão ao AT e reafirma que para Deus nada é impossível (Gn 18.14; Jó 42.2; Zc 8:6 -7).
25 E, ouvindo isto seus discípulos, ficaram extremamente espantados, dizendo: Quem então poderá ser salvo?
26 Mas Jesus, olhando-os, disse-lhes: Aos homens isto é impossível, mas com Deus todas as coisas são possíveis.
27 Então, respondendo Pedro, lhe disse: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; o que nós teremos por isso?
28 E Jesus disse-lhes: Em verdade eu vos digo que vós, que me seguistes, que na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. Mt 19:28
A expressão grega palingenesia, aqui traduzida por “regeneração” refere-se ao mundo renovado do futuro (o novo céu e a nova terra de Ap 21.1). As doze tribos, com as dez tribos do norte (Israel), perdidas séculos antes de Cristo (pela mistura com povos gentios), serão restauradas para o julgamento (Mt 25.31; Atos 3:20 -21; Ap 7:4 -8). O outro único uso da palavra “regeneração” tem a ver com a renovação espiritual das pessoas (Tt 3.5). Jesus ensina que o Reino de Deus não é uma competição, como em quase tudo nas sociedades humanas. Jesus tranqüiliza Pedro e promete que todos os que tomarem parte em sua batalha, compartilharão igualmente das bênçãos de sua vitória completa e eterna. Entretanto, em 20:1 -16, Ele adverte os seus seguidores sobre o perigo de julgar o assunto das recompensas divinas por um padrão meramente político, econômico e financeiro (terreno).
29 E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou esposa, ou filhos, ou terras, por causa do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna.
30 Mas muitos que são os primeiros serão últimos, e os últimos serão os primeiros.