Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Act 24
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1 E, após cinco dias, o sumo sacerdote, Ananias, desceu com os anciãos e com um certo orador chamado Tértulo, os quais informaram ao governador acusações contra Paulo. Atos 24:1
Ananias, o sumo sacerdote, após as palavras de advertência lançadas por Paulo contra sua pessoa no Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus, formado por 71 líderes religiosos e políticos) tornou-se um inimigo mortal do apóstolo Paulo (Atos 23.2; Êx 3.16; 2Sm 3.17; Jl 1.2; Mt 15.2). Por isso, se dispôs a viajar cerca de 100 km de Jerusalém até Cesaréia com o objetivo de colaborar pessoalmente na possível condenação de Paulo. Algumas versões traduziram literalmente a função de Tértulo, como “orador”. Entretanto, conforme a lei, era necessário que uma pessoa idônea, versada nas leis romanas e em retórica forense, assumisse a missão acusatória formal do processo contra um cidadão romano. Tértulo era um judeu helenístico familiarizado com os processos do tribunal de Roma.
2 E, sendo chamado, Tértulo começou a acusá-lo, dizendo: Visto que através de ti, estamos desfrutando de muito sossego, e que atos dignos são feitos a esta nação por tua providência,
3 sempre e em todo lugar, excelentíssimo Félix, o queremos reconhecer com todo o agradecimento. Atos 24:3
Nos altos escalões do poder, desde a antigüidade, lisonja, bajulação e subserviência são atitudes desonestas empregadas por alguns para conquistar favor e benevolência.
4 Mas, para não importuná-lo demasiadamente suplico-te que nos ouças com a tua clemência as nossas poucas palavras.
5 Porque temos achado que este homem é uma peste que promove sedições entre todos os judeus, por todo o mundo, e o chefe da seita dos nazarenos. Atos 24:5
O promotor de acusação tenta incriminar Paulo acusando-o de ser o principal líder de uma seita judaica. Já era comum chamar os cristãos de nazarenos, por causa da terra natal de Jesus. Assim, Tértulo aproveitou esse fato para transformar em duas acusações fatais contra Paulo: ser líder de uma ramificação religiosa ainda não aprovada por Roma, o que era frontalmente contra a lei. E, provocar tumultos, desordens públicas ou dissensões em várias das províncias romanas, o que era sumariamente interpretado como um ato de traição a César e, portanto, sujeito a pena capital.
6 O qual intentou também profanar o templo; o qual tomamos, e queríamos julgá- lo conforme a nossa lei.
7 Mas o tribuno Lísias veio a nós, e com grande violência, tirou-o de nossas mãos,
8 mandando aos seus acusadores que viessem a ti; examina-o tu mesmo e poderás entender todas as coisas das quais o acusamos.
9 E os judeus também concordaram que estas coisas foram assim.
10 Então, Paulo, depois que o governador tinha acenado para ele falar, respondeu: Porque eu sei que tu és a muitos anos juiz desta nação, sinto-me à vontade para me defender. Atos 24:10
Paulo atende ao regime protocolar, respeitoso e formal para sua defesa, entretanto não usa de adulações e falsas exaltações. Paulo cita fatos exatos e comprovados e apela à justiça.
11 Porque tu podes saber que não há mais de doze dias que eu subi a Jerusalém para adorar.
12 E eles não me encontraram no templo discutindo com algum homem, nem incitando o povo, nem nas sinagogas, nem na cidade;
13 nem eles podem provar as coisas de que agora me acusam.
14 Mas confesso-te, que segundo o Caminho, que eles chamam heresia, assim eu adoro ao Deus de nossos pais, crendo em todas as coisas que estão escritas na lei e nos profetas;
15 Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, que haverá a ressurreição de mortos, tanto dos justos como dos injustos. Atos 24:15
Paulo demonstra que o cristianismo não seria uma seita do judaísmo, mas que Jesus veio completar a obra da salvação da humanidade, desde a antigüidade, anunciada e profetizada por todos os servos do Senhor. Neste sentido, seguir o Caminho da justiça e da verdade era dever de todo judeu, e Paulo não se excluía dessa condição, pois era judeu de nascimento e por fé em Deus e em Sua Palavra. Aguardava a ressurreição dos salvos e o Juízo, como todo bom judeu (o que deve ter acirrado a antiga polêmica entre saduceus e fariseus). Paulo aproveita para alertar que os injustos (não salvos, injustificáveis) também serão ressuscitados, todavia para a condenação final (Ap 20:5 -12).
16 Nisto também me esforço de sempre ter uma consciência sem ofensa para com Deus e para com os homens. Atos 24:16
Paulo faz referência ao auto-exame de consciência diante de Deus, e que toda pessoa deve fazer periodicamente a fim de verificar se seus sentimentos e atitudes estão condizendo com a vontade soberana do Senhor ou são apenas reflexos do arbítrio egoísta e predatório do indivíduo humano e da sociedade em que vive (Rm 2.15; 9.1).
17 Ora, muitos anos depois, eu vim trazer esmolas à minha nação, e ofertas.
18 Nas quais, uns certos judeus da Ásia me encontraram purificado no templo, não em ajuntamentos, nem com tumulto, Atos 24:18
Paulo oferece um outro fato comprovado das suas reais intenções e ações. Ele havia trazido uma soma considerável em contribuições (esmolas) oferecidas pelas igrejas cristãs na Ásia e Europa, para ajudar o povo necessitado (em todos os sentidos) de Jerusalém, especialmente naqueles dias (1Co 16.1; 2Co 8.1; Rm 15.25; Atos 20.4). Além disso, Paulo tinha o apreciável hábito (não muito comum entre os líderes religiosos de nossos dias) de ajudar pessoalmente, e com seus próprios recursos financeiros, a muitos de seus companheiros de ministério (Atos 21.24). Paulo ainda, como judeu fariseu, observava as leis sobre purificação pessoal e doações (oferendas) a Deus no templo.
19 os quais deviam estar neste lugar diante de ti e acusar-me, se tivessem alguma coisa contra mim. Atos 24:19
Os líderes judeus da Ásia, que amotinaram as multidões, deviam também prestar seus depoimentos, porquanto foram testemunhas oculares.
20 Ou também estes mesmos digam aqui se encontraram algum mal em mim, quando eu estive diante do concílio.
21 A não ser esta voz que eu clamei, estando entre eles: Referente à ressurreição dos mortos, eu sou chamado em questão por vós neste dia.
22 E Félix, tendo ouvido estas coisas, e tendo um completo conhecimento do Caminho a adiou, e disse: Quando o tribuno Lísias descer, então eu saberei mais dos vossos assuntos. Atos 24:22
Félix era aquele tipo de pessoa muito comum em nossos dias: conhecia a história de Cristo, tinha medo da morte e do julgamento final, mas não queria saber de entregar sua vida para ser conduzida pelo Espírito de Deus. A esposa de Félix era judia, e já o havia informado sobre a Deus, os Profetas e o Caminho. Drusila foi a filha mais nova de Herodes I (Atos 12.1) e irmã de Agripa II (Atos 25.13) e de Berenice. A história registra que Drusila deixou Azizo, rei Emessa, aos 16 anos de idade, um ano após seu casamento, para se tornar a terceira esposa de Félix. O filho de Drusila, também chamado Agripa, morreu na erupção do monte Vesúvio em 79 d.C.
23 E ele ordenou ao centurião que guardassem Paulo, mas que ele tivesse liberdade, e que não proibisse nenhum dos seus conhecidos de servi-lo ou vir até ele.
24 E após alguns dias, vindo Félix com sua mulher Drusila, que era judia, mandou chamar a Paulo e ouviu-o acerca da fé em Cristo.
25 E, discursando sobre a justiça, a temperança, e o juízo vindouro, Félix, tremendo, respondeu: Por agora vai em teu caminho, e, quando eu achar o tempo conveniente, te chamarei. Atos 24:25
Paulo não perdia tempo nem jogava palavras ao vento. Sua objetividade e praticidade, orientadas pelo Espírito Santo, o levavam sempre e direto ao coração do indivíduo e às suas maiores necessidades. Paulo poderia ter clamado por sua libertação ou preparado uma mensagem suave e de bons presságios. Entretanto, Paulo falou – da parte do Senhor – sobre o que Félix e Drusila mais necessitavam: arrependimento e salvação. A reação foi semelhante a de Herodes Antipas diante de João (Mc 6.20).
26 Além disso, esperando que lhe fosse dado dinheiro por Paulo, para que o soltasse, mandava chamá-lo mais frequentemente e conversava com ele. Atos 24:26
Como a maioria das pessoas poderosas, Félix era um homem que nutria grande avareza. Seus convites para ouvir a Paulo tinham na realidade um interesse material. Félix soube da expressiva oferta financeira que Paulo havia entregado à igreja em Jerusalém e imaginou que poderia ter acesso a essa fonte vultuosa de recursos por meio de um possível suborno e, por isso, passou dois anos tentando a Paulo, porém, sem êxito.
27 Mas, após dois anos, Félix teve por sucessor a Pórcio Festo; e Félix querendo agradar aos judeus, deixou Paulo preso. Atos 24:27
A história registra que Félix foi chamado de volta a Roma no ano 60 d.C. para prestar contas por várias irregularidades observadas em seu governo, inclusive a maneira como lidou com os motins ocorridos entre judeus e sírios. Sabendo que em breve teria que enfrentar os judeus num tribunal romano, preferiu deixar Paulo na prisão, ainda que vencido o prazo limite de custódia de um cidadão romano sem julgamento, a fim de não provocar ainda mais a revolta dos judeus contra sua pessoa. Festo morreu dois anos após ter assumido o cargo. Agiu com honestidade e justiça muito superiores às de Félix, e às de seu sucessor Albino.