Ozzuu Bible
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1 Então, catorze anos depois, eu subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito comigo. Gl 2:1
Depois de catorze anos de sua conversão, Paulo tem seu segundo encontro com Pedro e os demais líderes do cristianismo da época. Dois irmãos e amigos acompanham o apóstolo nessa importante reunião: Barnabé, cujo nome significa “encorajador” ou “aquele que incentiva”. Seu primeiro nome era José, e era levita da ilha de Chipre (Atos 4.36). Foi grande companheiro de Paulo na primeira viagem missionária (Atos 13.1 – 14.28). Tito, por sua vez, era discípulo de Paulo e missionário em Corinto, mais tarde, enviado para Creta com o objetivo de liderar espiritualmente a Igreja que se reunia ali (Tt 1.5).
2 E subi por causa de uma revelação, e comuniquei- lhes o evangelho que prego entre os gentios, porém particularmente aos que eram de reputação, a fim de eu não correr ou de não ter corrido em vão.
3 Mas nem Tito, que estava comigo, sendo grego, foi obrigado a circuncidar-se.
4 E isso por causa da presença dos falsos irmãos, desconhecedores, que secretamente introduziram-se entre nós para espionar a liberdade que temos em Cristo Jesus, a fim de nos escravizar; Gl 2:4
Paulo considerava “falsos” os judeus que haviam passado pelo batismo cristão, mas defendiam crenças judaizantes (Atos 15.1), isto é, eram legalistas militantes e queriam a todo custo implantar na Igreja todos os costumes e tradições rabínicas quanto à Lei de Moisés (Atos 15.5; 2Co 11.26), especialmente à circuncisão e às restrições alimentares. O termo original, aqui traduzido por “espionar”, consta da Septuaginta (tradução grega do AT), com o mesmo sentido militar de “observar um território para eventual ataque” (2Sm 10.3; 1Cr 19.3). Na carta aos Gálatas, a palavra “liberdade” e suas derivações são expressões fundamentais da teologia paulina sobre a vida diária do cristão (Gl 3.28; 4.22,23,26,30,31; 5.1,13).
5 aos quais não nos sujeitamos nem por uma hora; a fim de que a verdade do evangelho permanecesse convosco.
6 Mas daqueles que pareciam ser alguma coisa, (o que quer que eles fossem, nenhuma diferença faz para mim: nada me importa; Deus não se deixa levar pela aparência do homem) pois aqueles que pareciam ser alguma coisa quando reunidos nada me acrescentaram,
7 antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me foi confiado, assim como o evangelho da circuncisão foi confiado a Pedro Gl 2:7
Paulo tinha o hábito de se dirigir à sinagoga local sempre que chegava a uma nova cidade. Como Jesus (Mt 4.23), valia-se da tradição rabínica de, como mestre visitante, poder fazer uso da palavra, e pregava o Evangelho (Atos 13:5 -14). Entretanto, sentia em seu coração um chamado especial para evangelizar os “gentios”; assim chamados pelos judeus, de sua época, todos quantos não haviam nascido ou se convertido ao judaísmo (Rm 11.13).
8 (porque aquele que operou eficazmente em Pedro o apostolado da circuncisão, o mesmo operou também em mim com eficácia para com os gentios);
9 e quando Tiago, Cefas e João, que pareciam ser os pilares, perceberam a graça que me foi dada, deram a mim e a Barnabé suas mãos direitas em sinal de comunhão; nós iríamos aos gentios e eles aos circuncidados.
10 Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres; justamente o que eu também estava determinado a fazer.
11 Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, fiz-lhe franca oposição, porque ele era reprovável. Gl 2:11
Pedro havia experimentado a plena liberdade que há na fé em Jesus Cristo, depois da visão que o Senhor lhe proporcionou em Atos 10:10 -35. Começou a conviver sem preconceitos com os gentios em Antioquia (principal cidade da Síria e, juntamente com Roma e Alexandria, uma das mais importantes cidades do Império Romano, de onde Paulo partiu para suas viagens missionárias – Atos 13:1 -3; 14.26) e desenvolveu grande e fraterna comunhão cristã com todos, participando alegremente das refeições em grupo e das festas evangélicas. Contudo, quando vieram os judaizantes de Jerusalém, Pedro, hipocritamente, deixou de seguir as orientações de convivência e fraternidade cristãs ministradas a ele pelo próprio Senhor. Pedro temeu a crítica dos líderes do partido dos legalistas circuncisos e procurou esconder-se para evitar constrangimentos. Paulo é usado por Deus para confrontar o pecado de um dos principais líderes da igreja cristã de sua época; seu amigo e irmão em Cristo, mas – como todos nós – um ser humano passível de ambigüidades e erros. Pedro jamais disse que era infalível (como pensam alguns teólogos). Ao contrário, até seus últimos anos defendeu, humildemente, a erudição e a autoridade espiritual de Paulo (2Pe 3:15 -16).
12 Porque, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; mas, quando aqueles vieram, ele retirou-se e separou-se deles, temendo os que eram da circuncição.
13 Os demais judeus se afastaram como ele, de modo que mesmo Barnabé foi levado por eles a essa dissimulação.
14 Mas, quando vi que eles não andavam corretamente segundo a verdade do evangelho, eu disse a Pedro diante de todos eles: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, como obrigas os gentios a viverem como os judeus?
15 Nós que somos naturalmente judeus, e não pecadores dentre os gentios. Gl 2:15
Paulo apenas evoca o tradicional conceito que os judeus tinham em relação aos gentios. Do ponto de vista de um judeu fiel e consciente, todos os que não guardavam a Lei eram considerados “pecadores” (Mt 11.19; Mc 2:15 -17; 14.41; Lc 15.1,2). Esse é o mesmo sentido da expressão no versículo 17.
16 Sabendo que o homem não é justificado pela prática da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo; nós também cremos em Jesus Cristo, e que a nossa justificação vem da fé em Cristo, e não pelas obras da lei, porquanto, pela prática da lei nenhuma carne será justificada. Gl 2:16
Esse é um dos versículos-chave da epístola, cujo tema geral: “justificação” é revelado aqui pela primeira vez e comentado durante todo o decorrer da carta: ninguém pode ser justificado pela observância da Lei; somente por meio da fé em Cristo é possível receber e viver plenamente o dom da justificação. Paulo não deprecia a Lei do AT, mas argumenta contra usá-la como fundamento para nossa aceitação diante de Deus (Rm 7.12; 3:20 -28; Fp 3.9).
17 Porém, se enquanto procuramos ser justificados por Cristo, nós mesmos também formos achados pecadores, por acaso seria Cristo o ministro do pecado? De forma alguma.
18 Se torno a construir as coisas que eu destruí, eu faço de mim mesmo um transgressor.
19 Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para que eu possa viver para Deus.
20 Estou crucificado com Cristo, não obstante, eu vivo, porém, não eu, mas Cristo vive em mim. E a vida que agora vivo na carne, vivo- a pela fé no Filho de Deus, que me amou, e entregou-se a si mesmo por mim.
21 Não negligencio a graça de Deus, pois se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu em vão. Gl 2:21
O legalismo, ainda que amparado pela Lei, não pode ser misturado à teologia da Graça, sob pena de se distorcer o verdadeiro significado da Graça e fazer do maior evento da história da humanidade: a crucificação, morte e ressurreição de Jesus, o Cristo, apenas um ato incoerente e sem qualquer valor metafísico (Gl 5.24; 6.14; Rm 6:7 -10; 7:4 -6; 1Tm2.6; Tt 2.14).