Ozzuu Bible
pt_kjfiel - Act 6
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1 E naqueles dias, multiplicando o número dos discípulos, surgiu ali uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram negligenciadas na ministração diária. Atos 6:1
Há um intervalo de tempo considerável e impreciso entre o final de Atos 5 e este momento no qual, devido ao gigantismo da Igreja que continuava crescendo sem parar (Atos 5.14), problemas administrativos estavam ocorrendo, tanto dentro (Atos 6:1 -7) quanto fora da comunidade (Atos 6.8 – 7.60). Nesta altura dos acontecimentos, a Igreja era formada integralmente por judeus convertidos à doutrina de Jesus Cristo e batizados com o Espírito Santo. Contudo, havia dois grupos bem distintos de judeus que conviviam dentro da comunidade dos crentes: 1) Os judeus helenistas (essa é a primeira vez que esse termo é usado na literatura grega) ou de fala grega, pois pertenciam a uma geração nascida em países fora da Palestina, cujos conceitos e hábitos eram mais gregos que hebreus. 2) Os judeus hebreus pertenciam à geração nascida na Palestina e que falava o aramaico, uma língua derivada do hebraico e muito popular entre os mais jovens. Eles aprendiam a ler a Bíblia hebraica e procuravam manter as tradições e cultura judaicas. Entretanto, o zelo missionário partiu dos crentes helenistas menos tradicionais e mais comunicativos, pois falavam grego, que era a língua franca em todo o Império Romano. As viúvas, tradicionalmente protegidas pela Lei, ficaram sob os cuidados da Igreja (Atos 4.35; 11.28,29; 1Tm 5:3 -16).
2 E os doze convocaram a multidão dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Atos 6:2
O vocábulo grego original: diakonein (diáconos) significa “servidores” ou “ministros”, e foi usado por Lucas para descrever o trabalho de “servir às mesas”, ou seja, zelar e prover às viúvas o sustento de cada dia (Fp 1.1; 1Tm 3.6). Nesse momento da Igreja, os apóstolos estavam sobrecarregados, pois eram responsáveis por toda a ministração da Palavra, curas e outros milagres; e ainda cuidavam da arrecadação de ofertas, distribuição dos recursos entre as famílias da comunidade, ajuda às viúvas, órfãos e demais necessitados.
3 Por isso, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais possamos nomear sobre este serviço. Atos 6:3
A Igreja distingüiu homens cheios do Espírito Santo (Atos 6.5), e os Doze (como eram chamados pela Igreja) comissionaram os Sete (Atos 21.8), escolhidos democraticamente pelos crentes (Atos 6.6). Desta maneira, foram nomeados para realizar seu “serviço cristão” (ministério). Curiosamente, todos têm nomes gregos, mas somente Estevão e Filipe são citados novamente por Lucas (Atos 6.8 – 7.60; 8:5 -40; 21.8,9). E havia um prosélito (um gentio convertido ao judaísmo) que era de Antioquia, cidade para a qual o Evangelho seria levado dentro em breve, e se tornaria a “sede” da primeira grande campanha missionária de evangelização aos gentios.
4 Mas nós entregaremos continuamente à oração e ao ministério da palavra.
5 E este parecer agradou a toda a multidão, e eles escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timão, e Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia,
6 a quem eles colocaram diante dos apóstolos, e estes, orando, impuseram suas mãos sobre eles. Atos 6:6
A imposição de mãos tem uma simbologia e um significado muito amplo e profundo. No AT era usada para outorgar bênçãos (Gn 48:13 -20); para transferir a culpa do pecador para o sacrifício oferecido (Lv 1.4); e para comissionar uma pessoa a uma nova responsabilidade ou desafio (Nm 27.23). No período do NT, as mãos eram colocadas sobre as pessoas que eram agraciadas com curas e livramentos (Atos 28.8; Mc 1.41), na invocação de bênçãos (Mc 10.16), na ordenação ou comissionamento (Atos 6.6; 13.3; 1Tm 5.22), bem como na outorga de dons espirituais (Atos 8.17; 19.6; 1Tm 4.14; 2Tm 1.6).
7 E a palavra de Deus crescia, e o número dos discípulos se multiplicava muito em Jerusalém, e grande número dos sacerdotes obedeciam à fé. Atos 6:7
Esse é mais um dos relatórios sobre o crescimento da Igreja apresentados por Lucas durante o livro de Atos (Atos 1.15; 2.41; 4.4; 5.14; 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20; 28.31). Lucas ainda enfatiza a conversão de sacerdotes que, apesar do seu compromisso vitalício com os serviços relativos ao cumprimento das ordenanças da antiga aliança, compreenderam o ensino dos apóstolos quanto ao sacrifício vicário de Jesus Cristo, o qual tornou desnecessário qualquer outro tipo de sacrifício (Hb 8.13; 10:1 -4, 11-14). Além disso, movidos pelo Espírito Santo, passaram a obedecer de bom grado, aos princípios do Evangelho da Graça (Rm 1.5; Ef 2:8 -10; Tg 2:14 -26). Zacarias foi um exemplo, na época de Cristo, de sacerdote convertido a Jesus (Lc 1:5 -6).
8 E Estêvão, cheio de fé e de poder, fazia grandes maravilhas e milagres entre o povo. Atos 6:8
Até esse momento Lucas narrou exclusivamente os apóstolos realizando milagres e maravilhas (Atos 2.43; 3:4 -8; 5.12). A partir de agora, porém, após a imposição de mãos dos apóstolos, Estevão – pleno do Espírito e de fé – passa a ministrar sinais e prodígios entre o povo. Mais adiante, veremos Filipe também operando milagres para a glória de Jesus Cristo e salvação dos crentes (Atos 8.6).
9 Então, levantaram-se alguns da sinagoga, que é chamada A Sinagoga dos Libertos, e dos cireneus, e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Ásia, e disputavam com Estêvão. Atos 6:9
Os membros da sinagoga de “Libertos” eram descendentes dos judeus levados cativos para Roma pelo imperador Pompeu (63 a.C.) e que logo foram libertos, junto com outros judeus das regiões mencionadas nessa passagem bíblica.
10 E eles não eram capazes de resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava.
11 Então, eles subornaram homens, que disseram: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus.
12 E eles incitaram ao povo, e os anciãos e os escribas; e vindo sobre ele, agarraram-no e o levaram ao concílio.
13 E apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar e a lei. Atos 6:13
O templo era o lugar mais sagrado do mundo e centro do universo para os judeus por ser a habitação de Deus. A Lei oferecia como único caminho para a salvação a obediência absoluta à Lei e aos sacrifícios no Templo. Evidentemente, que qualquer insinuação contrária à Lei ou à reverência devida a Deus era considerada como blasfêmia (ultraje) e punida com a morte. Contudo, a própria Lei previa um julgamento justo mediante várias testemunhas. Porém, os acusadores de Estevão usaram os mesmos artifícios que já se haviam provado eficientes contra Jesus: falsos depoimentos, calúnias e incitação popular (Mc 14.56- 64). Os mesmos argumentos seriam usados contra Paulo e muitos mártires da Igreja (Atos 21.28).
14 Porque nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus de Nazaré destruirá este lugar, e mudará os costumes que Moisés nos deu. Atos 6:14
Estevão, como os demais “servos” do Senhor, estava anunciando que a fé cristã não se conservaria dentro dos estreitos e legalistas limites do judaísmo (Mc 7.18,19; Mt 23.25,26; Lc 11:39 -41), e antecipa a nova e universal teologia, que seria sistematizada por Paulo mais tarde.
15 E todos os que estavam assentados no concílio, fixando os olhos nele, viram a sua face como a face de um anjo. Atos 6:15
A aparência radiante, poderosa e angelical de Estevão indica um fenômeno físico-espiritual de transfiguração na presença de um acompanhante sobrenatural (2Co 3.18 de acordo com Êx 34.29 e Mt 17.2).